
A Prostituta da Estrada
Estados Unidos (Flórida) - 1989–1990 - 7 mortos, 6 penas de morte
Prostituta de beira de estrada, matou sete homens em um ano na Flórida central. Disse que foi legítima defesa. Depois disse que foi roubo. Foi executada em 2002 pedindo a própria morte.

Capítulo 1
Aileen Carol Pittman nasceu em 29 de fevereiro de 1956, em Rochester, Michigan. A mãe, Diane, tinha se casado aos 14 e tinha 16 quando ela nasceu. O pai, Leo Pittman, nunca a conheceu: estava preso quando ela nasceu e seria condenado à prisão perpétua por sequestrar e estuprar uma menina de sete anos. Enforcou-se na cela em 1969.
Em janeiro de 1960, Diane deixou Aileen, de três anos, e o irmão Keith, de quatro, com os pais dela e foi embora. Os avós, Lauri e Britta Wuornos, adotaram as crianças. Os dois bebiam. Aileen disse, a vida inteira, que o avô a espancava nua com o cinto e que abusou dela. Ela só descobriu aos onze anos que aqueles não eram os pais.
Aos onze, trocava sexo por cigarros, comida e droga com os meninos da escola, na mata atrás das casas. Aos quatorze, engravidou. Disse que foi estupro, por um amigo do avô. Em 23 de março de 1971, num lar para mães solteiras, deu à luz um menino, entregue para adoção. Quatro meses depois, a avó morreu. O avô a expulsou. Aos quinze anos, ela vivia num carro abandonado na mata perto de casa, se prostituindo.
Aos dezoito, foi presa no Colorado por dirigir bêbada e atirar com uma pistola .22 de um carro em movimento. Aos vinte, pegou carona para a Flórida e casou-se com Lewis Fell, 69 anos, presidente de um iate clube. Durou nove semanas: ela bateu nele com a bengala dele. No mesmo mês, o irmão Keith morreu de câncer e ela recebeu dez mil dólares de seguro. Gastou tudo em dois meses. Aos 22, deu um tiro na própria barriga. Foi a sexta tentativa de suicídio.
Em 1981, assaltou uma loja de conveniência em Edgewater, Flórida, com um revólver, levando 35 dólares e dois maços de cigarro. Cumpriu um ano. Em 1986, num bar gay de Daytona Beach, conheceu Tyria Moore, camareira de motel, 24 anos. Foi a única pessoa que ela amou. Sustentava as duas fazendo programas com caminhoneiros nos acostamentos da I-75 e da US 19.

Capítulo 2
Em 30 de novembro de 1989, Richard Mallory, 51 anos, dono de uma loja de eletrônicos em Clearwater, pegou uma mulher na estrada. Em 13 de dezembro, o corpo dele apareceu numa mata de Volusia County, com vários tiros de .22. Dois deles, no pulmão esquerdo, o mataram. O carro foi achado dias antes, abandonado, longe do corpo.
Seis meses de silêncio. Depois, em 1990, um por mês. David Spears, 43, operário de construção, achado nu em 1º de junho, na US 19, em Citrus County, seis tiros. Charles Carskaddon, 40, peão de rodeio, achado em 6 de junho, em Pasco County, nove tiros, enrolado num cobertor elétrico. Peter Siems, 65, marinheiro aposentado e missionário, saiu de Jupiter em junho para visitar a família e nunca foi encontrado. Só o carro.
Troy Burress, 50, vendedor de linguiça de Ocala, sumiu em 30 de julho e apareceu em 4 de agosto, em Marion County, dois tiros. Charles Humphreys, 56, major da Aeronáutica aposentado, ex-chefe de polícia e investigador de abuso infantil, morto em 11 de setembro, sete tiros, vestido. Walter Antonio, 62, caminhoneiro e policial da reserva, morto em 19 de novembro, em Dixie County, quatro tiros, quase nu.
Sete homens em doze meses. Todos brancos, de meia-idade, viajando sozinhos de carro pelas estradas da Flórida central. Todos com a mesma pistola .22. De cada um, ela levava o carro, o dinheiro, o relógio, as ferramentas, o que houvesse. Penhorava o que dava.
Em 4 de julho de 1990, duas mulheres capotaram o carro de Peter Siems numa estrada de terra em Orange Springs, saíram feridas, xingaram uma testemunha e desapareceram na mata a pé. Foi a primeira vez que alguém viu as duas.
Capítulo 3
As vítimas eram homens brancos, de 40 a 65 anos, sozinhos, ao volante, nas rodovias entre Daytona, Ocala e a costa do Golfo. Clientes ou caronas. Homens que pararam para uma mulher loira, de jeans e boné, com uma bolsa e o polegar levantado no acostamento.
Os corpos apareciam em matas à beira de estradas secundárias, a quilômetros do carro, que ela abandonava em outro condado. Alguns nus, outros vestidos. Todos com tiros de .22, vários, no tronco. Nada de faca, nada de estrangulamento. Um tiro atrás do outro.
O ritmo foi o de quem tem contas a pagar. Cada morte rendia um carro para vender ou abandonar, algumas centenas de dólares, objetos para o penhor. O dinheiro sustentava dois quartos de motel e a cerveja. Quando acabava, ela voltava à estrada. Os investigadores contaram: o intervalo entre as mortes foi diminuindo.
O padrão que quebrou tudo foi o penhor. Em Daytona, a câmera e o detector de radar de Richard Mallory foram empenhados por “Cammie Marsh Greene”, que deixou uma impressão digital no recibo, como a lei exige. Em Ormond Beach, as ferramentas de David Spears. Em outra loja, a pistola de Carskaddon. Todas com impressão digital.
Ela foi a exceção do perfil: uma mulher que matou desconhecidos, um de cada vez, com arma de fogo, por dinheiro e por raiva. O FBI, que estudou dezenas de assassinas em série, não tinha outra igual. As outras matavam parentes, pacientes, com veneno. Aileen matava como um homem.

Capítulo 4
Ela ficava no acostamento, de jeans, fazendo sinal. Quando o carro parava, dizia que precisava de carona, ou de dinheiro, ou oferecia programa. Pedia para sair da rodovia, para uma estrada de terra, uma mata, onde ninguém visse. Levava a pistola .22 na bolsa.
O que acontecia na mata tem duas versões dela. Na primeira, de 1991, todos os sete tentaram estuprá-la ou a estupraram, e ela atirou para se defender. Na segunda, de 2001, ela disse que era mentira: “eu roubei aqueles homens e matei, frios como gelo. E faria de novo.” O tribunal ficou com a segunda. Broomfield, que a filmou até a véspera da execução, ficou em dúvida.
O que a perícia mostrou é o seguinte. Os tiros eram muitos e de perto, no tronco, alguns nas costas. Depois do primeiro, ela continuava atirando. Em Carskaddon, nove vezes. Alguns corpos estavam nus, o que ela explicou como preparação para o sexo. Humphreys estava vestido, com os bolsos virados, e levou sete tiros, um deles na cabeça, de perto, para acabar.
Depois, ela dirigia o carro da vítima até outro condado, limpava as impressões, tirava a placa e abandonava. Às vezes com Tyria no carro. Levava o que valia: relógio, ferramentas, câmera, uma pistola, o cobertor elétrico. Vendia nas casas de penhor de Daytona, com nome falso e a própria impressão digital no recibo. Guardava algumas coisas no armário do motel.
Ela era descuidada por natureza e bêbada quase sempre. Não escondia corpos, não trocava de arma, não saía da região. Sete mortes em um ano, num raio de duzentos quilômetros, com o mesmo calibre. A polícia demorou a ligar os casos por um único motivo: ninguém procurava uma mulher.
Capítulo 5
Explosiva. Toda pessoa que a conheceu conta a mesma coisa: brigas de bar, gritos, ameaças, um taco de bilhar na cabeça de um barman, uma garrafa de cerveja num motorista de ônibus. Ela bebia desde criança e bebia o dia inteiro. Na estrada, os caminhoneiros a conheciam pela raiva.
Mentia sobre tudo, inclusive sobre o próprio nome: Sandra Kretsch, Susan Blahovec, Lee Blahovec, Cammie Marsh Greene, Lori Grody. Tinha uma dúzia de identidades e nenhuma vida. O único elo era Tyria, que ela chamava de esposa e a quem escondia o que fazia com o dinheiro, até deixar de esconder.
No julgamento, os psicólogos da defesa falaram em transtorno de personalidade borderline e antissocial, o resultado, disseram, de uma infância inteira de abandono e abuso. Um psiquiatra da acusação a avaliou com a escala de psicopatia de Hare: 32 em 40, acima do corte. Os dois lados descreveram a mesma mulher: sem freio, sem confiança em ninguém, incapaz de sustentar uma relação, com ódio pronto para qualquer homem.
Quando o júri disse culpada, ela gritou no tribunal: “Eu sou inocente! Fui estuprada! Espero que vocês sejam estuprados! Escória da América!”. Dias depois, foi adotada legalmente por Arlene Pralle, uma criadora de cavalos evangélica que a viu no noticiário e disse que Jesus mandou. Aileen ganhou uma mãe aos 35 anos. Durou pouco.
Nos onze anos de corredor da morte, ela oscilou. Acusava as guardas de cuspir na comida e envenená-la. Escrevia cartas de dez páginas para Dawn, a amiga de infância, sobre Deus, sobre a mãe, sobre o menino que entregou. E, no fim, só queria morrer. Demitiu os advogados, pediu ao governador que apressasse. Um psiquiatra a considerou apta a decidir. No último dia, disse a Broomfield que estava sendo levada por uma nave-mãe e que voltaria com Jesus. Também disse: “obrigada, sociedade, por me ferrar”.
Capítulo 6
A versão dela mudou três vezes, e a discussão nunca acabou. Em 1991: legítima defesa, sete vezes. Em 1992, ao se declarar culpada de três mortes “para acertar as contas com Deus”: Mallory a estuprou, os outros não. Em 2001, para acabar com os recursos: nenhum a atacou, ela roubou e matou “frios como gelo” e faria de novo, porque tinha “ódio rastejando pelo sistema”.
O caso Mallory é o que dá razão à primeira versão. Depois do julgamento, descobriu-se que Richard Mallory tinha cumprido pena em Maryland, de 1958 a 1962, por tentativa de estupro, com um laudo de “fortes tendências sociopáticas”. O juiz não deixou o júri ver isso. Ela contou, com detalhes que não mudaram em dez anos, que ele a amarrou, a estuprou e a torturou por horas antes que ela alcançasse a bolsa.
Os outros seis não dão. Um deles era um missionário de 65 anos. Outro, um investigador de abuso infantil. Os corpos, com tiros nas costas e bolsos revirados, contam uma história de assalto. Os investigadores acham que a primeira morte foi o que ela disse, e que depois ela descobriu duas coisas: que podia, e que pagava as contas.
Broomfield filmou uma cena em que ela, achando que a câmera estava desligada, diz que foi legítima defesa, sim, mas que não aguentava mais o corredor da morte e ia dizer o que fosse preciso para morrer. Minutos depois, com a câmera ligada, repete que roubou e matou. A última entrevista, na véspera da execução, ela passou gritando que a polícia sabia de tudo desde o primeiro corpo e a deixou continuar para render um filme.
A explicação mais aceita hoje é a que os psicólogos deram em 1992: uma vida inteira de abuso por homens, começando pelo avô, produziu uma mulher para quem cada homem no banco do motorista era uma ameaça e um alvo ao mesmo tempo. A primeira vez pode ter sido defesa. As seguintes foram ódio com uma pistola na bolsa.

Capítulo 7
O capotamento do carro de Peter Siems, em julho de 1990, deu à polícia dois retratos falados de mulheres. Em novembro, o xerife de Marion County os divulgou à imprensa. As ligações vieram: uma dupla de mulheres num motel em Daytona, “Lee” e “Ty”. Os nomes falsos levaram a fichas antigas. As fichas tinham impressões digitais. Os recibos de penhor também.
Em 9 de janeiro de 1991, dois policiais disfarçados de motoqueiros a encontraram no The Last Resort, um bar de estrada em Port Orange, onde ela dormia num assento de carro velho nos fundos. Prenderam-na por um mandado antigo, sem falar em assassinato. No dia seguinte, acharam Tyria Moore na casa da irmã, na Pensilvânia.
Tyria voltou à Flórida e, com a polícia gravando, ligou para a cadeia durante três dias, chorando, dizendo que ia ser presa pelo que Aileen tinha feito. Em 16 de janeiro, Aileen disse ao telefone que ia confessar para livrar Ty. Confessou seis mortes no mesmo dia, em três horas, dizendo que todos tentaram estuprá-la. Tyria depôs contra ela e nunca foi acusada.
O julgamento pelo caso Mallory começou em 14 de janeiro de 1992, em DeLand. Pela “regra Williams” da Flórida, o júri pôde ouvir sobre as outras seis mortes, para provar padrão. Culpada em 27 de janeiro. Recomendação unânime de pena de morte. Sentença em 31 de janeiro. Ela se declarou culpada ou não contestou os outros cinco casos ao longo de 1992 e 1993: seis penas de morte. Siems, sem corpo, nunca gerou acusação.
Em 2001, ela demitiu os advogados e pediu o fim dos recursos. Em 2002, o governador Jeb Bush mandou três psiquiatras avaliá-la; concluíram que ela entendia o que pedia. Em 9 de outubro de 2002, às 9h47, na Florida State Prison, morreu por injeção letal, a segunda mulher executada na Flórida desde 1976. Recusou a última refeição. Tomou um café.
As últimas palavras: “Eu só queria dizer que estou navegando com a rocha e vou voltar, como em Independence Day, com Jesus. Seis de junho, como no filme. Nave-mãe e tudo. Eu vou voltar.” As cinzas foram espalhadas por Dawn Botkins sob uma árvore em Michigan. No ano seguinte, Charlize Theron ganhou o Oscar interpretando-a.
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