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Ficha de Albert Fish na prisão de Sing Sing, 1903
Ficha de Sing Sing, 1903, quando ele cumpriu pena por furto. Tinha 33 anos. · New York State Archives, domínio público

O Homem Cinzento

Albert Fish

Estados Unidos (Nova York) - 1924–1932 - 3 confirmadas, dezenas suspeitas

Um pintor de paredes de 64 anos, avô, de aparência frágil. Em 1934, mandou uma carta à mãe de uma menina desaparecida seis anos antes contando o que fez com ela. Foi assim que o pegaram.

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Radiografia da pélvis de Albert Fish mostrando agulhas cravadas
A radiografia feita em 1934: 29 agulhas na pélvis, inseridas por ele mesmo ao longo dos anos. · Prova do julgamento de 1935, domínio público

Capítulo 1

Quem era ele

Hamilton Howard Fish nasceu em 19 de maio de 1870, em Washington, D.C. O pai, Randall, tinha 75 anos. Morreu de infarto numa estação de trem quando o menino tinha cinco. A mãe, sem dinheiro, o internou no orfanato de Saint John. Ele trocou o nome para Albert, o de um irmão morto, para escapar do apelido Ham and Eggs.

No orfanato, as crianças apanhavam com vara, nuas, na frente das outras. Ele contou aos psiquiatras que descobriu ali que a dor lhe dava prazer, e que passou a desejá-la. A mãe conseguiu um emprego público e o tirou de lá em 1880. Era tarde.

Aos doze anos, um entregador de telegramas o iniciou em práticas que ele manteria a vida inteira. Aos vinte, mudou-se para Nova York e se prostituiu para homens. Disse que começou a estuprar meninos na mesma época. Casou-se em 1898, num arranjo da mãe, com Anna Hoffman. Tiveram seis filhos. Ele pintava casas e viajava a trabalho por 23 estados.

Em 1903, foi preso por furto e passou por Sing Sing. Em 1917, a mulher fugiu com um inquilino, levando os móveis. Ele criou os seis filhos sozinho. Os filhos lembravam do pai subindo uma colina à noite, pelado, gritando para a lua “eu sou Cristo”, e pedindo que batessem nele com uma pá de madeira cravejada de pregos.

Na mesma época, começou a ouvir vozes. Dizia que São João lhe dava ordens. Enfiava agulhas de costura na virilha e no baixo-ventre e as deixava lá. Quando o prenderam, em 1934, a radiografia da pélvis mostrou 29 agulhas, algumas corroídas de tão antigas. Os médicos nunca tinham visto nada igual.

Nascimento
19/05/1870, Washington, D.C.
Família
Casado em 1898, seis filhos, abandonado em 1917
Ocupação
Pintor de paredes, itinerante por 23 estados
Aparência
Franzino, bigode grisalho, avô de fala mansa
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Retrato de Grace Budd
Grace Budd com a família, em foto publicada pela imprensa em dezembro de 1934. Ela saiu de casa em 3 de junho de 1928 para uma festa de aniversário que não existia. · Foto da família Budd, publicada em dezembro de 1934, domínio público

Capítulo 2

Os crimes

Ele disse que começou por volta de 1910, em Wilmington, Delaware, com um rapaz de dezenove anos com deficiência intelectual chamado Thomas Kedden. Levou-o a uma casa abandonada, torturou-o por duas semanas e o mutilou. Fugiu com medo de que o rapaz morresse. Nunca soube o que aconteceu com ele. Disse que em 1919 matou um menino em Georgetown. Nada foi confirmado.

Em 14 de julho de 1924, Francis McDonnell, oito anos, brincava com amigos em Port Richmond, Staten Island. Um velho de bigode grisalho o chamou. À noite, o corpo apareceu na mata, estrangulado com os próprios suspensórios, com cortes nas pernas e no abdômen. As crianças descreveram o homem. A imprensa o chamou de Homem Cinzento.

Em 11 de fevereiro de 1927, Billy Gaffney, quatro anos, sumiu do corredor do prédio onde morava, no Brooklyn. O amigo de três anos que estava com ele disse que “o bicho-papão levou”. O corpo nunca apareceu. Sete anos depois, preso, Fish descreveu numa carta ao próprio advogado o que fez com o menino, numa casa vazia perto da estrada de ferro: tortura, morte, desmembramento, e o que cozinhou e comeu ao longo de quatro dias.

Em 25 de maio de 1928, Edward Budd, dezoito anos, pôs um anúncio no New York World: “rapaz de 18 anos procura emprego no campo”. Três dias depois, um senhor gentil chamado Frank Howard, fazendeiro de Farmingdale, bateu à porta dos Budd em Manhattan. Trouxe morangos e queijo. Voltou em 3 de junho, almoçou com a família e perguntou se a filha caçula, Grace, dez anos, podia ir à festa de aniversário da sobrinha dele. A mãe hesitou. O pai disse que sim. Grace saiu de mãos dadas com ele.

Ele a levou de trem a Westchester County, a uma casa vazia chamada Wisteria Cottage, em Irvington. Mandou-a colher flores no quintal enquanto se despia no quarto do andar de cima. Chamou-a. Estrangulou-a. Depois desmembrou o corpo e comeu partes dele ao longo de nove dias. Os ossos, enterrou atrás da casa.

Três mortes confirmadas. Ele disse que “teve crianças em todos os estados” e falou em cem. A polícia o ligou a outras: Yetta Abramowitz, doze anos, no Bronx, em 1927; Mary Ellen O’Connor, dezesseis, em Queens, em 1932, perto de uma casa que ele pintava. Nenhuma foi provada.

Francis McDonnell
8 anos, 14/07/1924, Staten Island
Billy Gaffney
4 anos, 11/02/1927, Brooklyn
Grace Budd
10 anos, 03/06/1928, Manhattan
Condenação
1, pela morte de Grace Budd
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Capítulo 3

Os padrões

Crianças. Ele disse aos psiquiatras que preferia meninos, mas que aceitava meninas, e que escolhia as que ninguém procuraria com afinco: filhos de imigrantes, crianças negras, crianças com deficiência. Grace Budd foi a exceção, uma menina branca de família operária de Manhattan, e foi por ela que ele caiu.

O tempo dele era o do trabalho. Pintor itinerante, ia de cidade em cidade, de estado em estado, e as crianças eram onde ele estava. Staten Island em 1924, Brooklyn em 1927, Manhattan em 1928. Depois de cada uma, mudava de endereço. Em Nova York, viveu em dezenas de pensões.

Ele parecia inofensivo, e era isso que funcionava. Um velho pequeno, de bigode branco, voz baixa, maneiras de outro século. Levava presentes. Falava de Deus. Os Budd o receberam para almoçar e entregaram a filha. Os vizinhos de Staten Island viram um senhor conversando com crianças e não pensaram nada.

Havia um padrão que ninguém viu: ele voltava a escrever. Mandava cartas obscenas a mulheres que respondiam a anúncios de casamento, assinando com nomes falsos. Foi preso algumas vezes por isso e solto. Mandou uma carta ao advogado sobre Billy Gaffney. Mandou uma carta a Delia Budd sobre Grace. Precisava contar.

Perfil
Crianças de 4 a 12 anos, preferência por meninos
Região
Nova York; itinerante por 23 estados
Compulsão
Cartas obscenas a desconhecidos
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Capítulo 4

Modus operandi

A abordagem era a de um avô. Um nome falso respeitável, Frank Howard, uma história de fazenda, presentes baratos, dinheiro para as crianças da casa irem ao cinema. Ele conquistava a família inteira, não só a criança. Almoçava à mesa. Pedia permissão.

Carregava o que chamava de “instrumentos do inferno”: um cutelo, um serrote e uma faca de açougueiro, embrulhados num pano. Na viagem com Grace, esqueceu o pacote no trem e mandou a menina correr para buscá-lo. Ela buscou.

Matava estrangulando. Depois vinha o que os psiquiatras listaram no julgamento, uma lista de dezoito parafilias que nenhum deles tinha visto reunidas numa só pessoa: sadismo, masoquismo, flagelação, canibalismo, necrofilia, e outras. Ele disse a Wertham que o ato de comer era, para ele, uma comunhão.

Consigo mesmo, o método era o mesmo. As agulhas na virilha. A pá com pregos. Algodão embebido em álcool inserido no reto e aceso. Ele disse que pretendia fazer a Grace o que fazia a si, e que teria feito, se não tivesse tido medo de que ela gritasse.

O erro foi o papel. A carta a Delia Budd, em novembro de 1934, foi escrita em papel timbrado da Associação Beneficente dos Motoristas Particulares de Nova York. Um porteiro da associação disse à polícia que tinha levado o papel para a pensão onde morava, na Rua 52 Leste, e deixado lá. O detetive William King foi à pensão. Fish tinha saído dias antes, mas pediu à dona que guardasse um cheque para ele. King esperou.

Isca
Identidade falsa, presentes, conquista da família
Instrumentos
Cutelo, serrote e faca, embrulhados num pano
Erro fatal
O papel timbrado da carta a Delia Budd
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Ficha de Sing Sing de 1903, de frente e de perfil
A ficha completa de 1903. Trinta anos depois, os Budd viram nele um avô inofensivo. · New York State Archives, domínio público

Capítulo 5

Como ele era

Fredric Wertham, o psiquiatra que passou meses com ele antes do julgamento, escreveu que ele “parecia um homem gentil, benevolente, de fala mansa; se você quisesse alguém para confiar seus filhos, ele era o homem que escolheria”. Franzino, 1,65 m, bigode branco, terno velho. Aos 64 anos, parecia ter oitenta.

Por dentro, Wertham não encontrou nada de parecido com o que conhecia. Fish era, escreveu, “o exemplo mais completo de perversão sexual que já vi”. Listou dezoito parafilias. Mas o que mais o impressionou foi a religião: Fish acreditava de verdade que Deus lhe mandava torturar e castrar crianças, e que se Deus não quisesse, mandaria um anjo detê-lo, como fez com Abraão e Isaque. Ele esperou o anjo. O anjo não veio.

Ele não era um psicopata frio, no sentido de Bundy ou Ridgway. Chorava, rezava, se punia. Escreveu ao advogado que não conseguia explicar por que fazia aquilo, que era “uma coisa que está em mim”. Ao mesmo tempo, descreveu o que fez com Grace Budd num tom de quem conta um piquenique, e disse que nunca pensou nos pais dela.

Foi preso pelo menos oito vezes antes de 1934, por furto, por cartas obscenas, por vadiagem. Passou por Bellevue duas vezes, em 1930 e 1931, para avaliação psiquiátrica. Nas duas, foi liberado como “inofensivo”. Um médico escreveu: “senil, mas não louco”.

No julgamento, os psiquiatras da acusação disseram que ele era “anormal, mas são”, porque sabia que matar era crime e se escondeu depois. O júri levou uma hora. Um jurado disse à imprensa que a maioria achava que ele era louco, mas que devia morrer de qualquer jeito.

Quando ouviu a sentença, ele disse que morrer na cadeira elétrica seria “a emoção suprema, a única que ainda não experimentei”. Em Sing Sing, ajudou o carrasco a ajustar os eletrodos. As últimas palavras, segundo o New York Times: “nem sei por que estou aqui”.

Aparência
1,65 m, franzino, bigode branco, parecia mais velho
Diagnóstico (Wertham)
Psicose religiosa, 18 parafilias
Veredicto
“Anormal, mas são”
Passagens por Bellevue
Duas, liberado como inofensivo
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Capítulo 6

As motivações

Ele deu três explicações, e as três eram sinceras. A primeira: prazer. O orfanato lhe ensinou que dor era prazer, e ele passou a vida procurando os dois, em si e nos outros. A segunda: Deus. As vozes mandavam sacrificar crianças, como Abraão, e ele obedecia esperando um anjo. A terceira, a mais simples: não sabia. “É uma coisa que está em mim.”

Wertham juntou as três. Um menino abandonado pelo pai, entregue a um lugar de espancamentos rituais, criado por uma mãe que tinha alucinações, iniciado no sexo aos doze anos por um adulto. Tudo o que ele aprendeu sobre amor, Deus e corpo veio embaralhado com violência. Ele passou sessenta anos reproduzindo a lição.

O canibalismo, para Wertham, era comunhão: Fish comia a criança como o fiel come a hóstia, para ter Deus dentro de si. A castração era o sacrifício de Isaque. O sofrimento que infligia a si mesmo era penitência pelo que infligia aos outros. A religião não era desculpa; era o mecanismo.

A carta a Delia Budd é o dado mais estranho. Seis anos depois, sem que ninguém o procurasse, ele escreveu à mãe da menina para contar tudo. Não pedia nada. Não ameaçava. Disse depois que não sabia por que escreveu. Os psiquiatras acham que precisava que alguém soubesse, e que uma parte dele queria ser parado.

A acusação ofereceu uma explicação mais curta ao júri: ele fez tudo isso porque quis, sabia que era errado, fugiu e se escondeu por seis anos. O júri concordou.

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Vista aérea da prisão de Sing Sing, em Ossining, Nova York, 1937
Sing Sing, em Ossining, em foto aérea de 1937, um ano depois da execução. Ele disse que a cadeira elétrica seria a emoção suprema, a única que ainda não tinha experimentado. · U.S. National Archives, domínio público

Capítulo 7

O desfecho

Frank Howard não voltou com Grace em 3 de junho de 1928. A fazenda de Farmingdale não existia. O detetive William King, da polícia de Nova York, ficou seis anos no caso. Seguiu pistas falsas, prendeu um inocente e o soltou, publicou apelos. Em 1934, o caso estava morto.

Em 11 de novembro de 1934, chegou uma carta para Delia Budd. Ela não sabia ler. O filho Edward leu. A carta contava, em detalhes, o que o autor tinha feito com Grace. O envelope trazia o emblema de uma associação de motoristas. Um porteiro da associação lembrou de ter levado papel timbrado para a pensão onde morava. A dona da pensão reconheceu a letra de um ex-inquilino, um velho que tinha deixado um endereço para receber um cheque.

Em 13 de dezembro de 1934, King o esperou na pensão. Fish desceu para tomar chá. Quando King disse que era da polícia, ele puxou uma lâmina de barbear de cada bolso. King o desarmou sem esforço. Ele confessou no mesmo dia, com calma, e no dia seguinte levou os policiais a Wisteria Cottage. Os ossos de Grace estavam atrás da casa, onde ele disse.

O julgamento durou dez dias em White Plains, em março de 1935. A defesa alegou insanidade. Wertham depôs por horas. A acusação chamou psiquiatras que disseram que comer carne humana era apenas “questão de gosto”. O júri o considerou são e culpado em 22 de março. O juiz Frederick Close o condenou à cadeira elétrica.

Em 16 de janeiro de 1936, às 23h06, ele entrou na câmara de execução de Sing Sing. Segundo os repórteres, sentou sem ajuda e ajudou a colocar os eletrodos. Morreu três minutos depois. Tinha 65 anos, o mais velho executado em Sing Sing até então. O advogado guardou uma última declaração escrita dele, de várias páginas, e se recusou a mostrá-la: disse que era “a mais imunda sequência de obscenidades” que já tinha lido. Foi enterrado no cemitério da prisão.

A carta
11/11/1934, papel timbrado de uma associação de motoristas
Prisão
13/12/1934, pensão da Rua 52 Leste, Manhattan
Julgamento
11 a 22/03/1935, White Plains, juiz Frederick Close
Execução
16/01/1936, cadeira elétrica, Sing Sing
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Pergunta 1 de 8

Como Albert Fish foi identificado, seis anos depois do crime?

Fontes

De onde vem tudo isso

  1. 1.The Show of Violence, Fredric Wertham, Doubleday (1949) - o psiquiatra da defesa, que o examinou por meses e depôs no julgamento; capítulo sobre Fish
  2. 2.Deranged: The Shocking True Story of America's Most Fiendish Killer, Harold Schechter, Pocket Books (1990) - biografia baseada nos autos de Westchester County e nas cartas de Fish
  3. 3.Albert Fish Trial: 1935, Great American Trials, via Encyclopedia.com - resumo do processo People v. Albert Fish, Westchester County, indictment nº 15-1935
  4. 4.Fish Dies in Chair for Budd Slaying, The New York Times, 17 de janeiro de 1936 (1936) - cobertura da execução em Sing Sing
  5. 5.Albert Fish, Wikipedia (inglês) - usada para conferir datas e nomes; confira as notas de rodapé de lá
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