
O Açougueiro de Rostov
União Soviética (Rússia, Ucrânia, Uzbequistão) - 1978–1990 - 52 condenações, 56 confessadas
Professor, depois almoxarife de fábrica, membro do Partido. Por doze anos matou crianças e mulheres nas matas ao lado das linhas de trem do sul da Rússia, enquanto o Estado negava que serial killers existissem no socialismo.

Capítulo 1
Andrei Romanovich Chikatilo nasceu em 16 de outubro de 1936, em Yabluchne, uma aldeia da região de Sumy, na Ucrânia soviética. A família tinha sobrevivido ao Holodomor, a fome provocada por Stalin que matou milhões. A mãe lhe contou que, antes de ele nascer, um irmão mais velho, Stepan, tinha sido sequestrado e comido por vizinhos famintos. Nunca se provou que Stepan existiu. Ele acreditou a vida inteira.
O pai foi para a guerra, caiu prisioneiro dos alemães e voltou marcado como traidor, como todos os soldados soviéticos capturados. O menino cresceu numa casa de um cômodo, dormindo na mesma cama que a mãe, molhando a cama até a adolescência e apanhando por isso. Era míope, magro, tímido, e os colegas o espancavam. Descobriu cedo que era impotente.
Estudou. Tentou a Universidade de Moscou e não passou. Formou-se técnico de comunicações, serviu no Exército de 1957 a 1960, entrou para o Partido Comunista. Em 1963, a irmã arranjou o casamento com Feodosia Odnacheva. Tiveram dois filhos, com dificuldade. Em 1970, formou-se em literatura russa por correspondência e virou professor de escola técnica em Novoshakhtinsk.
Foi um professor ruim, que os alunos ridicularizavam, e um professor perigoso. Molestou alunos e alunas por anos. Cada vez que uma queixa surgia, era transferido de escola, sem registro. Em 1978, mudou-se com a família para Shakhty, cidade de mineração perto de Rostov do Don, e comprou em segredo um barraco de um cômodo no número 26 do Beco Mezhevoi.
Em março de 1981, foi demitido do magistério e virou almoxarife de uma fábrica de materiais de construção em Rostov. O trabalho era viajar de trem pelo país atrás de peças. Ele passou a viver nas estações.

Capítulo 2
Em 22 de dezembro de 1978, Yelena Zakotnova, nove anos, voltava da escola em Shakhty. Ele a convidou a entrar no barraco do Beco Mezhevoi. Tentou estuprá-la, não conseguiu, e a esfaqueou três vezes. Foi o momento em que descobriu que a faca lhe dava o que o sexo não dava. Jogou o corpo no rio Grushevka. A polícia prendeu um vizinho, Aleksandr Kravchenko, ex-condenado. Ele foi fuzilado em 1983 pelo crime.
Em 3 de setembro de 1981, Larisa Tkachenko, dezessete anos, aceitou uma carona para a margem do Don, em Rostov. Ele a estrangulou, mordeu-a e encheu a boca dela de terra. Nove meses depois, começou o que a polícia chamaria de Operação Lesopolosa, “cinturão de florestas”: os bosques plantados ao longo das ferrovias, onde os corpos passaram a aparecer.
Junho de 1982: Lyubov Biryuk, treze anos, em Donskoi, 22 facadas. Depois, seis mortes até dezembro, incluindo Olga Stalmachenok, dez anos, com mais de cinquenta. Em 1983, oito, entre elas Igor Gudkov, sete anos, e Laura Sarkisyan, quinze. Em 1984, quinze, o ano mais sangrento: Dmitry Ptashnikov, dez anos, em março; Tatyana Petrosyan e a filha Svetlana, de onze, no mesmo dia de maio; duas mulheres em Tashkent, no Uzbequistão, em agosto, numa viagem de trabalho.
Em setembro de 1984, ele foi preso, examinado e solto. Continuou. Duas mortes em 1985. Três em 1987, em cidades distantes, na Sibéria, na Ucrânia, perto de Leningrado, sempre a trabalho. Três em 1988. Cinco em 1989, uma delas Tatyana Ryzhova, dezesseis anos, desmembrada no apartamento vazio da filha dele. Oito em 1990, incluindo Ivan Fomin, onze anos, numa praia de Novocherkassk em pleno dia.
A última foi Svetlana Korostik, 22 anos, em 6 de novembro de 1990, na mata ao lado da estação de Donleskhoz. Ele saiu do bosque com o rosto e o dedo enfaixado, sujo de sangue e terra. Um sargento de polícia anotou o nome dele.
Foram 52 condenações: 21 meninos, 14 meninas e 17 mulheres, de 7 a 45 anos, entre 1978 e 1990. Ele confessou 56. A polícia acredita que houve mais.

Capítulo 3
As vítimas eram quem estava sozinho numa estação: crianças matando aula, adolescentes fugidos de casa ou de internatos, mulheres jovens sem teto, alcoólatras, deficientes mentais, prostitutas de plataforma que trocavam sexo por comida. Gente que o sistema soviético não registrava como desaparecida por semanas. Ele escolhia pela vulnerabilidade, não pelo sexo: matou quase tantos meninos quanto meninas.
Os locais eram os lesopolosy, os cinturões de árvores plantados ao lado das ferrovias e rodovias para conter o vento. Ficavam a poucos metros das plataformas, densos o bastante para esconder um corpo e próximos o bastante para ele voltar ao trem em minutos. As mortes seguem as linhas de trem entre Rostov, Shakhty e Novocherkassk, e depois as viagens de trabalho dele pelo país.
Os corpos tinham a mesma assinatura. Dezenas de facadas, em geral de trinta a cinquenta, superficiais e repetidas, como se a faca fosse o ato sexual. Os olhos perfurados ou arrancados. Em muitas vítimas, órgãos genitais, mamilos, língua ou parte do rosto removidos, às vezes levados embora. O perito Viktor Burakov notou nas órbitas oculares marcas idênticas da mesma lâmina em vítimas de anos e cidades diferentes. Foi o que convenceu a polícia de que era um homem só.
O ritmo obedecia ao trabalho e ao medo. Os anos de mais viagens foram os de mais mortes. Depois da prisão de 1984, ele parou por meses. Nas cidades distantes, matava uma vez e não voltava. Perto de casa, os intervalos encurtavam até semanas.
Havia um padrão invisível para a polícia: o sêmen deixado nos corpos era do tipo AB. O sangue dele era do tipo A. Durante seis anos, isso o excluiu de todas as listas de suspeitos. A explicação veio depois da prisão: ele era o caso raríssimo de um homem cujo sêmen e cujo sangue reagem de modo diferente aos testes da época.

Capítulo 4
Ele abordava na plataforma ou no trem, com o ar de um professor de meia-idade, óculos, pasta, terno surrado. A uma criança, oferecia chiclete, um vídeo cassete em casa, ajuda para achar um caminho. A uma mulher, vodca, comida, dinheiro, sexo. Pedia que o acompanhassem até a mata por um atalho. Muitas conheciam o caminho e foram.
Na mata, atacava de surpresa. Derrubava a vítima, amarrava as mãos com corda que trazia na pasta, cobria a boca. A faca vinha logo. Ele dizia que só conseguia excitação com a lâmina e o sangue, e que as facadas substituíam o ato que não conseguia realizar. Continuava depois da morte. Com os meninos, o padrão era o mesmo.
Perfurava os olhos. Explicou aos investigadores que acreditava numa superstição: a imagem do assassino ficaria gravada na retina da vítima. Depois disse que era só o que fazia. Retirava e às vezes levava órgãos. Contou que mordia e engolia partes das vítimas, e disse a Bukhanovsky que a fome de infância, a história do irmão comido, voltava nessas horas. Os investigadores não conseguiram confirmar tudo o que ele contou e nem tudo constou da sentença.
Depois, cobria o corpo com galhos e folhas e voltava à estação. Lavava-se num poço ou numa torneira. Limpava a faca. Escondia a roupa suja na pasta. Voltava para casa, para a mulher, que nunca soube de nada, e para as viagens de trabalho seguintes. Em doze anos, ninguém da família desconfiou.
A pasta era o kit: uma faca de cozinha de vinte centímetros, corda, um pote de vaselina, uma toalha. Foi o que a polícia achou nela em setembro de 1984, quando o prendeu na rodoviária de Rostov depois de vê-lo abordar mulher após mulher por dois dias. O exame de sangue deu tipo A. O sêmen das vítimas era AB. Soltaram-no. Condenaram-no por um furto de linóleo na fábrica, expulsaram-no do Partido, e ele voltou às estações.

Capítulo 5
Um homem cinzento. Alto, magro, curvado, óculos grossos, terno de funcionário. Falava baixo, tinha medo de tudo, deixava-se humilhar por colegas e chefes sem reagir. Na fábrica, era o almoxarife que não conseguia nada nas viagens, o que todos zombavam. Em casa, um pai ausente e uma sombra da mulher. Ninguém, em doze anos, o achou perigoso.
Em 1984, o psiquiatra Aleksandr Bukhanovsky, de Rostov, escreveu a pedido da polícia o primeiro perfil psicológico da história soviética. Chamou o assassino de “Cidadão X”. Descreveu um homem de 45 a 50 anos, casado, com filhos, com um passado de humilhações, impotente, sádico, que viajava a trabalho e que só atingia o prazer com a faca. Em 1987, ampliou para 65 páginas. Acertou quase tudo. A polícia não tinha como usar: o suspeito era um membro do Partido com sangue do tipo errado.
Depois da prisão, o Instituto Serbsky, em Moscou, o examinou por dois meses. Diagnóstico: lesão cerebral pré-natal, transtorno de personalidade com traços sádicos, e plena capacidade de entender o que fazia. São. Bukhanovsky, que passou dias com ele, descreveu um homem que sabia exatamente o que era, que planejava, que escolhia, e que não sentia nada pelas vítimas depois.
Ele sentia por si mesmo. Chorava ao falar da infância, do pai humilhado, do irmão comido, dos colegas que batiam nele. Dizia que a sociedade o tinha transformado naquilo. Disse ao tribunal: “eu sou um erro da natureza, um animal enlouquecido”. E, quando lhe convinha, fingia: no julgamento, cantou, despiu-se, gritou que estava grávido e amamentando, para parecer insano. O juiz não acreditou.
Numa cela ao lado da dele, no fim, ele se ofereceu para escrever um livro sobre si mesmo e reclamou das condições. Recusou-se a se retratar com as famílias. Sobre as 52 mortes, disse que não tinha o que dizer a elas.
Capítulo 6
A explicação dele começa na impotência. Desde a adolescência, não conseguia ter relações normais, e cada tentativa acabava em humilhação. Em 1978, ao esfaquear Yelena Zakotnova, teve o primeiro orgasmo em anos. A partir dali, a faca era o sexo. As trinta, cinquenta facadas não eram para matar; eram o ato.
Bukhanovsky viu um segundo motor: a vingança. Um menino espancado, humilhado, mijão, míope, filho de um traidor, que passou a vida sendo pisado por todos. Nas matas, pela primeira vez, ele era o mais forte. Ele mesmo disse: “eu tinha que mostrar a eles quem mandava”. Escolhia os mais fracos porque, com eles, mandava.
O terceiro é a fome. A mãe lhe contou do irmão comido. Ele cresceu com fome de verdade, na guerra e depois. Disse a Bukhanovsky que, ao morder as vítimas, sentia-se “um lobo”. Os psiquiatras não sabem se as histórias de canibalismo são verdade ou parte do que ele inventou para parecer louco. As mutilações, sim, eram reais.
E havia o Estado. Por anos, a doutrina oficial dizia que assassinos em série eram um produto do capitalismo e não existiam na União Soviética. A polícia demorou a admitir que era um homem só, perseguiu homossexuais e deficientes mentais, arrancou confissões falsas, fuzilou um inocente. Cada ano de negação deu a ele mais estações.
A sentença de Rostov não buscou explicar. Registrou que ele agiu “com crueldade especial”, com plena consciência, contra crianças e pessoas indefesas, por doze anos, e que não havia circunstância atenuante. Ele matou porque encontrou, na faca, a única coisa que funcionava, e porque ninguém o parou.

Capítulo 7
A Operação Lesopolosa durou oito anos e envolveu centenas de policiais, milhares de suspeitos, meio milhão de fichas. Policiais disfarçados de vagabundos dormiram em estações. Em 1990, todas as estações da região estavam sob vigilância aberta, com policiais uniformizados nas maiores, para empurrar o assassino para as menores, onde havia agentes à paisana.
Em 6 de novembro de 1990, na pequena estação de Donleskhoz, o sargento Igor Rybakov viu um homem sair da mata, lavar-se num poço, com o dedo enfaixado e manchas de sangue. Pediu os documentos, anotou o nome, Chikatilo, e deixou passar. Não havia motivo para prender um almoxarife com passagem para casa. Uma semana depois, o corpo de Svetlana Korostik foi encontrado naquele bosque. O nome estava no relatório.
A polícia levantou a ficha: a prisão de 1984, a expulsão do Partido, as queixas de alunos, as viagens de trabalho batendo com as mortes em outras cidades. Vigiaram-no por seis dias. Em 20 de novembro, prenderam-no na saída de um bar em Novocherkassk. Ele carregava a pasta. O exame do sêmen deu AB. O do sangue, A. O mistério dos seis anos se explicou em um dia.
Issa Kostoyev, o procurador especial, o interrogou por nove dias. Ele negou tudo, falou da infância, chorou, não confessou. Em 29 de novembro, com o prazo legal de detenção acabando, chamaram Bukhanovsky. O psiquiatra sentou-se diante dele e leu em voz alta o perfil de 65 páginas escrito três anos antes. Chikatilo ouviu a própria vida descrita por um estranho e desabou. Confessou 36 mortes naquela noite, e mais vinte nos dias seguintes. Levou a polícia aos corpos que ninguém tinha achado.
O julgamento começou em 14 de abril de 1992, em Rostov. Ele ficou numa jaula de ferro no centro da sala, para protegê-lo das famílias. Gritou, cantou, expôs-se, declarou-se grávido. O juiz Leonid Akubzhanov o expulsou várias vezes. Em 15 de outubro de 1992, foi condenado por 52 assassinatos, à morte. Ao ouvir, chutou o banco e gritou “vigaristas!”. A Suprema Corte manteve. Yeltsin negou clemência.
Em 14 de fevereiro de 1994, na prisão de Novocherkassk, foi levado a uma sala à prova de som e morto com um único tiro atrás da orelha direita, o método soviético. Tinha 57 anos. A mulher mudou de nome e de cidade. O barraco do Beco Mezhevoi ainda existe.
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