
O Canibal de Rotenburg
Alemanha (Hessen) - 9 de março de 2001 - 1 morto, com consentimento
Técnico de informática, ex-sargento, morava sozinho numa mansão de 44 cômodos. Pôs um anúncio na internet procurando alguém para matar e comer. Um engenheiro de Berlim respondeu e foi. A Alemanha levou cinco anos para decidir se aquilo era assassinato.

Capítulo 1
Armin Meiwes nasceu em 1º de dezembro de 1961, em Essen, no oeste da Alemanha. O pai, policial, foi embora quando ele tinha oito anos. A mãe, Waltraud, ficou. Era uma mulher dominadora que o vestia como boneca, o acompanhava a todos os lugares, inclusive às saídas com namoradas, e o tratava como marido substituto. Em 1980, os dois se mudaram para a casa da família em Wüstefeld, um povoado de poucas casas perto de Rotenburg an der Fulda, em Hessen: uma mansão do século XIX com 44 cômodos, que caía aos pedaços.
Ele contou depois que a fantasia começou entre os oito e os doze anos. Queria um irmão mais novo que nunca fosse embora. Inventou um, chamado Franky. Depois, viu vizinhos abaterem porcos e passou a imaginar que, se comesse um colega de escola, o colega ficaria dentro dele para sempre. Leu João e Maria. Viu um filme de Robinson Crusoé com canibais. A fantasia não passou.
Serviu no Exército alemão de 1981 a 1993, chegou a sargento, e era bem avaliado. Teve uma noiva, brevemente. Teve um namorado, brevemente. Depois da baixa, virou técnico de informática num centro de dados bancário em Kassel. Os vizinhos o achavam gentil e prestativo: cuidava das crianças, fazia de Papai Noel no Natal, consertava computadores de graça.
Em 2 de setembro de 1999, a mãe morreu. Ele ficou sozinho na mansão de 44 cômodos. Manteve o quarto dela intocado. Comprou um computador e descobriu que, na internet, havia fóruns onde pessoas como ele conversavam. Escolheu o nome Franky.
Capítulo 2
A partir de 2000, ele publicou dezenas de anúncios em fóruns de fetiche canibal, o principal chamado Cannibal Café. O texto: “procuro homem bem constituído, de 18 a 30 anos, para ser abatido e depois consumido”. Cerca de duzentas pessoas responderam. A maioria era fantasia e desapareceu na primeira troca de mensagens. Alguns foram até Wüstefeld, viram o “quarto de abate” que ele montou no sótão, com mesa de metal, cruz de Santo André, gaiola e ganchos, e desistiram. Ele deixou todos irem embora.
Em 5 de fevereiro de 2001, Bernd Jürgen Brandes respondeu. Tinha 43 anos, era engenheiro de telecomunicações da Siemens em Berlim, ganhava bem, morava com o namorado. Desde a adolescência tinha uma fantasia masoquista de ser castrado e comido. Trocaram e-mails quase diários por um mês. Brandes não queria só morrer: queria que a morte fosse aquela. No dia anterior à viagem, vendeu o carro, apagou os computadores, fez testamento deixando tudo ao namorado e pediu folga no trabalho alegando um transplante de cabelo.
Em 9 de março de 2001, às 10h40, Meiwes o buscou na estação de Kassel-Wilhelmshöhe. Passaram a tarde na mansão. Por volta das 18h30, a pedido de Brandes e com Brandes consciente, Meiwes amputou o pênis dele com uma faca. Os dois tentaram comer o órgão, cru e depois frito. Não conseguiram. Brandes, sangrando, tomou vinte comprimidos para dormir e uma garrafa de schnapps, e deitou-se numa banheira. Meiwes leu um livro de Jornada nas Estrelas na sala ao lado, checando-o a cada quinze minutos.
Por volta das três da manhã de 10 de março, Brandes desmaiou tentando ir ao banheiro. Meiwes o levou ao sótão, ao quarto de abate. Hesitou. Rezou. Beijou-o. Depois o esfaqueou no pescoço. Pendurou o corpo num gancho de açougue e o esquartejou. Filmou tudo: quatro horas de vídeo. Guardou cerca de trinta quilos de carne no freezer, sob caixas de pizza, e enterrou os ossos e o crânio no jardim.
Ao longo dos dez meses seguintes, comeu cerca de vinte quilos, em refeições que preparava com cuidado, à mesa, com vinho tinto, vela e a melhor louça da mãe. Disse que, a cada refeição, a memória dele melhorava: Brandes sabia inglês, e ele passou a saber mais inglês. Voltou aos fóruns. Recebeu mais visitantes. Não matou mais ninguém.
Capítulo 3
Um padrão de fantasia, não de caça. Ele não procurou vítimas na rua. Procurou voluntários, na internet, com um anúncio explícito, por dois anos. Duzentas respostas. Ele encontrou pessoalmente pelo menos meia dúzia. Um cozinheiro de Füssen foi duas vezes, participou de encenações e desistiu. Um homem de Regensburg foi pendurado de cabeça para baixo com etiquetas de “filé” e “presunto” coladas no corpo, e foi embora vivo. Um jovem de Essen que pedia para ser decapitado foi recusado: Meiwes o achou “indeciso e gordo demais”.
O único que não voltou foi o único que quis tudo. Brandes não era vítima no sentido dos outros perfis desta série: escolheu, planejou, viajou, deixou testamento, pediu, insistiu. Os psiquiatras que examinaram os e-mails viram nele uma fantasia masoquista de décadas, alimentada por uma infância de abandono, e um homem que no último dia estava, nas palavras do tribunal, com o juízo comprometido por sangue perdido, álcool e sedativos.
O padrão de Meiwes foi o mesmo por quarenta anos: um homem sozinho, ligado a uma mãe que o engolia, querendo alguém que nunca o deixasse. A mãe morreu em 1999. O anúncio foi ao ar em 2000. O crime foi em 2001. A cronologia é a de um luto.
Depois do crime, ele continuou. Trinta ou quarenta “encontros de abate” entre 2001 e 2002, com homens que queriam encenar e não morrer. Mostrou o vídeo a um deles. Mandou fotos do corpo a outro. E publicou novos anúncios, agora dizendo que já tinha feito. Foi um desses anúncios que o entregou.

Capítulo 4
A ferramenta era o anúncio. Explícito, repetido, em fóruns onde ninguém se assustava. Ele se apresentava como açougueiro, com o nome Franky, e conversava por semanas. Não havia engano nem isca: quem ia, sabia. O quarto de abate no sótão foi montado ao longo de um ano, com colchões nas paredes para abafar som, uma mesa de aço, um gancho, uma gaiola e manequins de borracha em que ele treinava cortes.
Com Brandes, a sequência foi combinada por e-mail. A castração primeiro, porque era o desejo de Brandes. A tentativa de comer o órgão juntos, porque era o desejo dos dois. A banheira, os comprimidos, o schnapps: Brandes queria ficar inconsciente. A morte, no sótão, quando ele já não podia responder. A faca no pescoço. O gancho. A serra. A câmera ligada o tempo todo.
O vídeo foi a peça central de tudo o que veio depois. Nele, segundo os juízes que o assistiram, Meiwes não parece um homem cumprindo uma vontade alheia. Parece um homem realizando a própria. É por causa do vídeo que o Bundesgerichtshof mandou julgá-lo de novo.
O descarte foi doméstico. Trinta quilos em porções no freezer, rotuladas. Ossos no jardim. O crânio, enterrado meses depois, mais fundo. A casa continuou a receber visitas, incluindo crianças da vizinhança. Ninguém viu nada de errado numa mansão bagunçada com um homem gentil dentro.
O erro foi contar. Em julho de 2002, um estudante austríaco de 23 anos achou um anúncio novo e perguntou, por curiosidade, se ele já tinha matado alguém. Meiwes disse que sim. Em outubro, o estudante procurou a polícia.

Capítulo 5
Educado, calmo, bem vestido, de óculos. No tribunal, falou por horas em tom de quem descreve um projeto de engenharia. Chorou uma vez, falando da mãe. Os jornalistas notaram que ele parecia aliviado por finalmente poder contar. Disse que sempre soube que aquilo era “um comportamento anormal”, e que sempre quis falar com alguém, e nunca teve com quem.
Os psiquiatras concordaram: personalidade esquizoide, sem psicose, sem alucinação, sem doença mental no sentido legal. Inteligência normal. Capaz de entender e de se controlar. Um homem que viveu quarenta anos com uma fantasia e escolheu realizá-la quando a única pessoa que o prendia ao mundo morreu.
Não era sádico. Deixou ir embora todos os que quiseram ir. Disse que nunca teria feito nada a alguém que não pedisse, e o histórico confirma. O que ele queria não era o sofrimento de Brandes, era Brandes: tê-lo dentro de si, como quis ter o colega de escola aos doze anos. Descreveu a morte como o momento mais íntimo da vida dele, e as refeições como comunhão.
Na prisão, tornou-se vegetariano. Trabalha na lavanderia, frequenta a capela, entrou para o grupo ambiental dos presos e para o Partido Verde, o que gerou polêmica. Deu entrevistas dizendo que se arrependia, que ninguém deveria fazer o que ele fez, que queria ajudar outros com a mesma fantasia a não realizá-la. Também escreveu a um jornal, em 2025, para corrigir o apelido: ele e Brandes não conseguiram comer o pênis, então tecnicamente, naquela noite, não houve canibalismo.
Os avaliadores da prisão dizem que ele ainda tem as fantasias. Em 2006, um psicólogo disse ao tribunal que ele podia reincidir. Os pedidos de liberdade condicional foram negados em 2017, 2018 e 2020. Ele está preso desde dezembro de 2002.
Capítulo 6
A explicação dele nunca mudou: queria alguém que fizesse parte dele e nunca fosse embora. O pai foi embora. Os irmãos mais velhos foram embora. A mãe morreu. O menino que inventou um irmão chamado Franky virou um homem que assinava Franky nos fóruns. Comer, para ele, era a forma definitiva de ficar junto.
O Bundesgerichtshof viu outra coisa, e é a leitura que valeu. A corte disse que o tribunal de Kassel errou ao ignorar o vídeo: as imagens mostram um homem que matou para satisfazer um desejo sexual, e isso, no código penal alemão, é um dos critérios que transformam homicídio em assassinato. Não importa que a vítima tenha pedido. Importa por que ele fez.
A defesa argumentou o oposto durante cinco anos: Brandes quis morrer daquele jeito, deixou isso escrito, viajou para isso. Se a lei alemã pune “homicídio a pedido” com no máximo cinco anos, por que Meiwes deveria pegar mais? A resposta dos tribunais foi que o pedido de Brandes não era válido: ele estava sedado, embriagado e sem sangue quando morreu, e Meiwes sabia disso e prosseguiu, pelo próprio prazer.
O caso virou debate jurídico e filosófico no mundo inteiro: pode-se consentir com a própria morte por prazer alheio? A Alemanha respondeu que não. Meiwes respondeu que, se tivesse encontrado ajuda antes, teria parado nas fantasias. Ninguém sabe se é verdade. Ele deixou ir embora todos os outros.

Capítulo 7
Em 10 de dezembro de 2002, a polícia identificou Franky e entrou na mansão de Wüstefeld. Achou o quarto de abate e três sacos de carne no freezer que, no primeiro exame, não foram reconhecidos como humanos. Meiwes admitiu a conversa com o estudante, recusou-se a falar da carne e foi liberado por falta de provas. Foi direto ao escritório do advogado, em Rotenburg, confessou tudo e se entregou no mesmo dia.
No dia seguinte, levou a polícia ao jardim e apontou onde estavam o crânio, as mãos, os pés. Entregou o relógio de Brandes. A polícia levou dezesseis computadores, 221 discos rígidos e 228 fitas de vídeo. Numa delas, as quatro horas. A lista de contatos tinha 430 nomes. Todos os alemães foram ouvidos. Um deles, o cozinheiro de Füssen, respondeu por cumplicidade e teve o processo suspenso.
O julgamento em Kassel começou em 3 de dezembro de 2003. A promotoria pediu assassinato. A defesa pediu “homicídio a pedido”, pena máxima de cinco anos. Em 30 de janeiro de 2004, o tribunal ficou no meio: homicídio simples, oito anos e meio. Os juízes entenderam que houve consentimento, ainda que viciado, e que ele não matou por prazer.
A promotoria recorreu. Em 22 de abril de 2005, o Bundesgerichtshof, em Karlsruhe, anulou a sentença: Kassel havia ignorado o que o vídeo mostrava. O caso foi para Frankfurt. O segundo julgamento durou de janeiro a maio de 2006, com o vídeo exibido a portas fechadas. Em 9 de maio de 2006, ele foi condenado por assassinato à prisão perpétua. O recurso dele foi rejeitado em 2007. Ficou definitivo.
A mansão de 44 cômodos virou destino de curiosos, foi invadida, saqueada e, em abril de 2023, incendiada por três jovens da região. Os três foram condenados a penas leves em 2025. Meiwes, aos 63 anos, continua na JVA Kassel I. Um novo advogado pediu a condicional em 2025. A audiência ficou para 2026.
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