← casos
Retrato de Ed Gein
Ed Gein sob custódia, novembro de 1957. · Foto de imprensa, 1957, domínio público

O Açougueiro de Plainfield

Ed Gein

Estados Unidos (Wisconsin) - 1954–1957 - 2 confessadas, 9 sepulturas violadas

Um faz-tudo tímido de uma cidade de 680 habitantes. Em 1957, a polícia entrou na fazenda dele e encontrou uma casa mobiliada com pele e ossos humanos. Ele inspirou Psicose, O Massacre da Serra Elétrica e O Silêncio dos Inocentes.

role para continuar
Página do censo de 1930 com a família Gein
O censo de 1930: George, Augusta, Henry e Edward, na fazenda de Plainfield. · U.S. Census Bureau, domínio público

Capítulo 1

Quem era ele

Edward Theodore Gein nasceu em 27 de agosto de 1906, em La Crosse, Wisconsin. O pai, George, era alcoólatra e não parava em emprego. A mãe, Augusta, luterana fervorosa, mandava na casa. Ela comprou uma fazenda de 63 hectares perto de Plainfield, uma cidade de 680 pessoas, para tirar os dois filhos do contato com o mundo.

Todas as tardes, Augusta lia a Bíblia para Ed e para o irmão mais velho, Henry. Escolhia trechos do Velho Testamento sobre morte, castigo e vingança divina. Ensinava que o mundo era imoral, que a bebida era do diabo e que todas as mulheres, menos ela, eram prostitutas por natureza. Ed a adorava.

Na escola, era o menino esquisito: tímido, com um tique de rir sozinho, uma pálpebra caída. Os colegas o evitavam. Quando tentava fazer amigos, a mãe o punia. Ele só saía da fazenda para trabalhar como faz-tudo e, mais tarde, como babá. As famílias da cidade gostavam dele com as crianças.

O pai morreu em 1940. Em maio de 1944, Henry morreu num incêndio de pasto na fazenda. Ed disse à polícia que tinha perdido o irmão de vista na fumaça e, depois, levou os policiais direto ao corpo. Henry estava de bruços, sem queimaduras, com hematomas na cabeça. O legista registrou asfixia. Ninguém investigou.

Augusta teve um derrame no fim daquele ano e outro no ano seguinte. Morreu em 29 de dezembro de 1945. Ed tinha 39 anos e nunca tinha tido uma amiga, uma namorada, um amigo. Lacrou com tábuas a sala e o quarto da mãe, deixando tudo como estava, e passou a viver num único cômodo ao lado da cozinha. Ficou sozinho na fazenda por doze anos.

Nascimento
27/08/1906, La Crosse, Wisconsin
Família
Pai George (m. 1940), irmão Henry (m. 1944), mãe Augusta (m. 1945)
Ocupação
Faz-tudo, babá, subsídio agrícola do governo
A cidade
Plainfield, cerca de 680 habitantes
Fontes 213role para continuar
Rua principal de Plainfield, Wisconsin
Plainfield. A loja de ferragens de Bernice Worden ficava na rua principal. · Praiawart, Wikimedia Commons, CC BY 4.0

Capítulo 2

Os crimes

Começou nos cemitérios. Entre 1947 e 1952, segundo ele mesmo, fez umas quarenta visitas noturnas a três cemitérios da região: Plainfield, Spiritland e Hancock. Lia os obituários no jornal, esperava o enterro e ia à noite, com pá e lanterna, num estado que descreveu como “meio atordoado”. Abriu nove sepulturas. Levou os corpos inteiros ou partes deles. Todas mulheres de meia-idade, recém-enterradas, parecidas com a mãe.

Em 8 de dezembro de 1954, Mary Hogan, 54 anos, dona de uma taverna em Pine Grove, desapareceu. No chão do bar, sangue e um cartucho de .32. Ela pesava noventa quilos; alguém a arrastou até um caminhão. Um vizinho de Ed brincou com ele, meses depois, que se ele tivesse dado em cima dela, ela estaria na fazenda. Ed respondeu: “ela está lá agora”. Todo mundo riu.

Em 16 de novembro de 1957, dia de abertura da temporada de caça ao veado, a cidade estava vazia. Bernice Worden, 58 anos, viúva, dona da loja de ferragens de Plainfield, sumiu da loja. A caixa registradora tinha ido junto. Havia sangue no chão. O último recibo, escrito à mão por ela, era de um galão de anticongelante para Ed Gein.

O filho dela, Frank, era delegado adjunto. Lembrava que Ed tinha perguntado na véspera se ele ia caçar no sábado. À noite, o xerife e um capitão entraram na fazenda dos Gein com uma lanterna. No galpão, pendurado pelos tornozelos numa viga, de cabeça para baixo, estava o corpo de Bernice Worden, sem cabeça, aberto e limpo como um veado abatido.

Ele confessou as duas mortes. Disse que atirou em Worden com um rifle .22 da prateleira da própria loja, carregou o corpo na caminhonete da loja e depois a levou para a fazenda. Sobre Hogan, disse que não lembrava bem. Nunca foi acusado por ela.

Ele foi suspeito de mais: o irmão Henry, em 1944; dois caçadores, Victor Travis e Ray Burgess, sumidos em 1952; Evelyn Hartley, 15 anos, sequestrada em La Crosse em 1953. Negou tudo. Nenhum caso foi ligado a ele.

Sepulturas
9, em 3 cemitérios, 1947–1952
Mary Hogan
54 anos, 08/12/1954, Pine Grove
Bernice Worden
58 anos, 16/11/1957, Plainfield
Condenação
1, pela morte de Worden
Fontes 2134role para continuar

Capítulo 3

Os padrões

Todas mulheres. Todas de meia-idade, entre 50 e 60 anos, robustas, de aparência maternal. As duas mortas e as nove desenterradas. Augusta Gein morreu aos 67, corpulenta, dominadora. Os psiquiatras não precisaram de muito para ver o padrão.

As duas vítimas vivas eram donas de negócio, mulheres que trabalhavam sozinhas e o atendiam com paciência. Mary Hogan na taverna, Bernice Worden na loja de ferragens. Ele frequentava as duas há anos. Chegou a convidar Worden para patinar. As duas tinham o porte da mãe e, dizem os que conheciam as três, o mesmo tipo de rosto.

O padrão de tempo era o obituário. Ele lia a coluna de mortes do jornal local e escolhia. Esperava o enterro, ia na mesma noite ou na seguinte, antes de a terra assentar. Devolvia a tampa do caixão e recompunha a cova. Ninguém percebeu por cinco anos.

Ele não escondia o que fazia, exatamente. Os meninos que ele cuidava como babá viram as máscaras penduradas na parede e as cabeças encolhidas. Contaram aos pais. Os pais riram: Ed dizia que eram lembranças de um primo que tinha servido nas Filipinas. Ed também dizia, na taverna, que sabia coisas sobre os desaparecimentos. Todo mundo achava graça do Ed.

Perfil
Mulheres de meia-idade, parecidas com a mãe
Cemitérios
Plainfield, Spiritland, Hancock
Seleção
A coluna de obituários do jornal
Fontes 21role para continuar

Capítulo 4

Modus operandi

Nos cemitérios: pá, lanterna, a picape. Abria a cova, arrancava a tampa do caixão, tirava o que queria e fechava tudo. Levava para casa, para a cozinha. Esfolava. Sabia fazer isso: era caçador e ajudava a limpar veados dos vizinhos, embora dissesse que o sangue de veado o enjoava.

Quando o xerife Art Schley entrou na casa, em 16 de novembro de 1957, encontrou o resultado de dez anos disso. Crânios enfiados nos postes da cama. Tigelas feitas de calotas cranianas. Assentos de cadeira forrados de pele humana. Um abajur, uma lixeira, uma bainha de faca, tudo de pele. Uma caixa de sapatos com nove vulvas. Um cinto feito de mamilos. Quatro narizes. Perneiras de pele humana. Um colete feito da pele de um tronco feminino, com seios, para vestir.

Nove máscaras: rostos de mulher, arrancados inteiros, com cabelo, tratados com sal e óleo, e guardados num saco de papel ou pendurados na parede. Numa delas, os policiais reconheceram Mary Hogan. A cabeça de Bernice Worden estava num saco de estopa, com pregos nas orelhas para ser pendurada. O coração dela, num saco, perto do fogão.

As duas mortes seguiram o mesmo roteiro. Uma mulher sozinha no balcão, um dia de pouco movimento, um tiro de arma de fogo pequena. Depois, o corpo na caminhonete e a fazenda. Worden foi tratada como um veado: pendurada pelos calcanhares numa viga, aberta do peito à pélvis, esvaziada, sem cabeça.

Ele disse que não teve relações com os corpos, porque “cheiravam mal demais”. Os psiquiatras acreditaram. O que ele fazia era vestir. À noite, com a pele do tronco, as perneiras, uma máscara de rosto de mulher, ele andava pela fazenda e pelo quintal, sob a lua, sendo a mãe.

Arma
Rifle .22 (Worden), pistola .32 (Hogan)
Ferramentas
Pá, lanterna, faca de caça, sal
Na casa
Restos de pelo menos 11 mulheres
Fontes 1243role para continuar
Stovall Hall, no Mendota Mental Health Institute, em Madison, Wisconsin
Stovall Hall, no Mendota Mental Health Institute, em Madison. Ele viveu ali de 1978 até morrer, em 1984. · Praiawart, Wikimedia Commons, CC BY 4.0

Capítulo 5

Como ele era

O juiz que o julgou, Robert Gollmar, o descreveu como “um homenzinho manso e dócil” que levava “uma vida de eremita numa fazenda solitária e isolada”. Media 1,70 m, pesava 65 quilos, usava boné de caçador e um sorriso torto que não combinava com as conversas. A cidade o chamava de Eddie esquisito. Ninguém tinha medo dele.

A casa tinha duas metades. A da mãe, lacrada, estava impecável, com os móveis cobertos e a poeira de doze anos intocada. A dele era lixo até o teto: latas, revistas, jornais, ferramentas, pratos com comida velha, tudo ao lado dos crânios e das máscaras. Entre as revistas, coleções sobre atrocidades nazistas, caçadores de cabeças da Amazônia e do Pacífico, anatomia e cirurgia de mudança de sexo.

Os psiquiatras de 1957 escreveram esquizofrenia. Ele ouvia vozes, achava que a mãe falava com ele, vivia numa fantasia mais forte que o mundo. Disse que não lembrava direito das visitas ao cemitério nem das mortes: acontecia “num transe”. Era tranquilo, cooperativo, meio alheio, e descrevia o que fazia com os corpos com a naturalidade de quem descreve um serviço na fazenda.

Não era sádico. Nunca torturou ninguém; as duas mortes foram um tiro cada. Não era sexualmente violento no sentido comum: os laudos falam de um homem que tinha nojo de sexo, que a mãe ensinou a ver as mulheres como pecado, e que ao mesmo tempo só pensava em mulheres. A solução que ele achou foi a pele.

No hospital psiquiátrico, foi paciente-modelo por 27 anos. Ajudava os enfermeiros, fazia trabalhos manuais, era gentil. Quando um funcionário lhe perguntou o que achava da fama, ele disse que os livros e filmes exageravam.

Aparência
1,70 m, franzino, boné de caçador, sorriso torto
Diagnóstico
Esquizofrenia (1957); inimputável (1968)
Sadismo
Nenhum; as mortes foram rápidas
Na prisão
Paciente-modelo por 27 anos
Fontes 123role para continuar

Capítulo 6

As motivações

Ele mesmo deu a explicação, aos psiquiatras, em 1957: queria ser a mãe. Depois que ela morreu, começou a pensar em mudar de sexo. Não tinha como. Então passou a fazer uma mulher para vestir: o colete com seios, as perneiras, as máscaras. Queria “entrar na pele dela”. Os corpos que desenterrava eram todos de mulheres da idade e do tipo de Augusta.

Os laudos falam de uma dependência total. A mãe foi a única pessoa que ele teve. Ela lhe ensinou que o mundo lá fora era imundo e que ele devia ficar perto dela. Quando ela morreu, ele lacrou os cômodos dela como um santuário e tentou, ao pé da letra, trazê-la de volta. Um psiquiatra escreveu que, para ele, o cemitério era o lugar onde as mães estavam.

As duas mortes, ele explicou de outro jeito, ou não explicou. Sobre Worden, disse que estava “meio atordoado” e que não pretendia matar. Sobre Hogan, que não lembrava. Os investigadores acham que as duas foram o passo seguinte: quando os corpos frescos dos cemitérios ficaram escassos ou arriscados, ele passou a produzi-los. As duas eram as mulheres vivas mais parecidas com Augusta que ele conhecia.

Ele não tirava prazer da morte, e os laudos são unânimes nisso. Tirava prazer do que vinha depois: a pele, as noites de lua vestido de mulher, a casa cheia de rostos que o olhavam. O juiz Gollmar escreveu que, de todos os casos que julgou, este foi o único em que a palavra “monstro” não servia, porque o réu não sabia que era um.

Fontes 123role para continuar
A lápide de Ed Gein no cemitério de Plainfield
A lápide, antes de ser roubada em 2000. Hoje fica guardada na delegacia de Waushara County. · Bryanwake, Wikimedia Commons, domínio público

Capítulo 7

O desfecho

Ele foi preso na noite de 16 de novembro de 1957, na mercearia de um vizinho, enquanto a polícia estava na fazenda. Na delegacia, o xerife Art Schley, ao ouvir a confissão, bateu a cabeça dele contra a parede. A primeira confissão foi anulada por isso. Schley morreu de infarto em 1968, aos 43 anos, semanas antes do julgamento. Os amigos disseram que o que viu na fazenda o matou.

Dois dias depois, a polícia abriu duas das sepulturas que ele indicou. Uma estava vazia. Na outra, faltava o que ele disse ter levado. A Life e a Time mandaram repórteres para Plainfield. A capa da Life de 2 de dezembro chamou a fazenda de “a casa do horror”. Os moradores começaram a fazer turismo de carro em frente à casa.

Em janeiro de 1958, ele foi declarado incapaz de ser julgado: esquizofrenia. Foi internado no Central State Hospital para criminosos insanos, em Waupun. Na madrugada de 20 de março de 1958, dez dias antes do leilão dos bens, a casa pegou fogo. Não se descobriu quem foi. Quando lhe contaram, ele disse: “tanto faz”. O carro dele foi vendido a um feirante por 760 dólares e virou atração de parque, a 25 centavos a entrada.

Em 1968, dez anos depois, os médicos o julgaram capaz de entender um julgamento. O juiz Robert Gollmar presidiu, sem júri, em novembro. Ele foi julgado apenas pela morte de Bernice Worden. Em 14 de novembro, foi considerado culpado de homicídio em primeiro grau. Em seguida, na segunda fase, declarado inocente por insanidade e devolvido ao hospital.

Em 1974, pediu para ser solto. O juiz negou. Em 1978, foi transferido para o Mendota Mental Health Institute, em Madison, um hospital, não uma prisão. Morreu lá em 26 de julho de 1984, aos 77 anos, de câncer de pulmão. Foi enterrado no cemitério de Plainfield, ao lado da mãe, no mesmo cemitério que tinha violado. Turistas lascavam pedaços da lápide. Em 2000, roubaram-na inteira. Foi recuperada em 2001 perto de Seattle e hoje fica guardada na delegacia.

Dois anos depois da prisão, Robert Bloch, que morava a 60 quilômetros de Plainfield, publicou Psicose. Depois vieram Leatherface e Buffalo Bill. Ed Gein nunca foi um serial killer no sentido estrito: matou duas pessoas. Mas foi ele quem deu ao cinema americano a ideia do que um serial killer é.

Prisão
16/11/1957, o recibo do anticongelante
Julgamento
Novembro de 1968, juiz Robert Gollmar, sem júri
Veredicto
Culpado, depois inimputável por insanidade
Morte
26/07/1984, Mendota, câncer de pulmão
Fontes 1235role para continuar

Pergunta 1 de 8

Quantas pessoas Ed Gein confessou ter matado?

Fontes

De onde vem tudo isso

  1. 1.Edward Gein: America's Most Bizarre Murderer, Robert H. Gollmar, Charles Hallberg & Co. (1981) - escrito pelo juiz que presidiu o julgamento de 1968; inclui laudos e trechos dos autos
  2. 2.Deviant: The Shocking True Story of Ed Gein, the Original Psycho, Harold Schechter, Pocket Books (1989) - biografia baseada em autos, laudos psiquiátricos e entrevistas em Plainfield
  3. 3.Gein, Edward 1906–1984, Wisconsin Historical Society, Dictionary of Wisconsin History - verbete oficial, com trecho do relato do juiz Gollmar
  4. 4.House of Horror Stuns the Nation, Life, vol. 43, nº 23 (1957) - edição de 2 de dezembro de 1957, com fotos da fazenda e da cidade
  5. 5.Ed Gein, Wikipedia (inglês) - usada para conferir datas; confira as notas de rodapé de lá
Voltar aos casos