
O Assassino do Green River
Estados Unidos (Washington) - 1982–1998 - 49 condenações, 71 confessadas
Pintor de caminhões com emprego fixo e casamento estável. Por vinte anos, ninguém desconfiou que ele era o serial killer mais prolífico já condenado nos EUA.

Capítulo 1
Gary Leon Ridgway nasceu em 18 de fevereiro de 1949, em Salt Lake City. Aos onze anos, a família se mudou para King County, no estado de Washington. A casa dos pais ficava a poucos passos da Pacific Highway South, a estrada onde, décadas depois, ele encontraria a maioria das vítimas.
Na escola, repetiu duas vezes. Molhou a cama até os treze anos. Era considerado lento para aprender e lia mal. Nada disso chamava atenção.
Aos quinze ou dezesseis anos, chamou um menino de seis anos para construir um forte no mato atrás da escola. Disse a ele que havia gente por ali que gostava de matar meninos. Depois, enfiou uma faca nas costelas do garoto, até o fígado.
O menino sobreviveu. Quarenta anos depois, um detetive o encontrou na Califórnia. Ele lembrava da frase que ouviu do agressor, que ria enquanto limpava a lâmina na camisa dele: “sempre quis saber como é matar alguém”.
Ridgway serviu na Marinha entre 1969 e 1971, passou pelas Filipinas e disse ter usado prostitutas pela primeira vez lá. Voltou, descobriu que a primeira esposa tinha outro homem e a chamou de “vagabunda”. Em agosto de 1971, começou a pintar caminhões na fábrica da Kenworth. Ficaria lá por mais de trinta anos.

Capítulo 2
Em 15 de julho de 1982, dois meninos de bicicleta na Peck Bridge, em Kent, viram algo boiando no rio Green. Era Wendy Lee Coffield, dezesseis anos, nua exceto por sapatos e meias. A própria roupa dela estava amarrada no pescoço.
Em 12 de agosto, Debra Bonner apareceu no mesmo rio. Três dias depois, um homem de bote encontrou mais dois corpos na água, Marcia Chapman e Cynthia Hinds, e a polícia achou um terceiro na margem, Opal Mills, de dezesseis anos. Cinco mulheres em um mês. A imprensa deu o nome: o Assassino do Green River.
Depois disso, os corpos deixaram de aparecer no rio e passaram a aparecer em matas e barrancos ao redor do aeroporto de Sea-Tac. Muitas vezes só sobravam ossos, meses ou anos depois do desaparecimento. Identificar cada vítima levava anos.
A lista oficial chegou a 49 vítimas, quase todas mortas entre 1982 e 1984. Na primavera de 1983, em menos de quatro semanas, ele matou pelo menos seis mulheres.
Ele dizia que tinha parado em 1985. Era mentira. Confrontado com provas, admitiu uma morte em 1990 e outra em 1998. Em 2003, declarou-se culpado por 48 assassinatos. Em 2011, pelo 49º. Nas entrevistas, afirmou ter matado mais de 60 mulheres em King County. O número que ficou registrado foi 71.
Capítulo 3
As vítimas eram quase todas prostitutas de rua e adolescentes fugidas de casa, abordadas na Pacific Highway South, a estrada que passa pelo aeroporto. Ele chamava isso de “patrulhar”. Estacionava de ré no pátio de uma loja 7-Eleven, às vezes com o capô do caminhão levantado, e ficava olhando “o tráfego”.
Ele escolhia prostitutas por um motivo que explicou sem rodeios: eram “as mais fáceis”. Achava que a polícia não procuraria com afinco uma prostituta desaparecida. Estava certo. Muitas só foram dadas como desaparecidas semanas depois, e surgiam boatos de que tinham sido vistas vivas.
Preferia as mais jovens. Disse que as meninas de treze ou quatorze anos eram mais inocentes, menos propensas a enganá-lo. E acrescentou algo que os detetives anotaram: “as mais novas se destacavam mais quando falavam enquanto morriam”.
Os corpos apareciam nus, sem joias, em locais remotos, íngremes e cobertos de mato. Ele os deixava em grupos, perto de marcos visíveis de longe: uma árvore grande, um guard-rail, um tronco caído. Assim sabia onde estavam e, passando de carro, conseguia perceber se a polícia já tinha achado.
As joias ele deixava nos banheiros femininos da fábrica. Gostava de imaginar uma colega de trabalho usando o brinco de uma das mortas.

Capítulo 4
A primeira coisa era passar confiança. Na carteira, atrás da identidade, ficava a foto do filho. No painel do caminhão, brinquedos de criança. Levava cerveja para provar que não era policial. Se a mulher aceitava ir até a casa dele, mostrava o quarto do menino, com o nome na porta e brinquedos no chão. “Esse cara tem um filho, não vai machucar ninguém.”
Muitas perguntavam se ele era o Assassino do Green River. Ele respondia: “Eu pareço o Assassino do Green River?”. Todo mundo esperava um homem grande. Ele era pequeno, magro, de fala mansa.
Matava quase sempre no próprio quarto, às vezes na caçamba coberta do caminhão. Pedia que a mulher usasse o banheiro antes, porque sabia que estrangulamento causa incontinência e não queria sujar a cama. Durante o sexo, por trás, esperava ela levantar a cabeça, ou dizia “vem um carro aí”, e passava o braço em volta do pescoço.
Quando a vítima lutava, ele dizia que a soltaria se ela parasse de se debater. Várias paravam. Ele continuava. Depois de ser arranhado algumas vezes, trocou o braço por ligaduras: toalhas, cinto, fio de extensão, cabo de bateria, a própria camiseta. Dizia que nunca durava mais de dois minutos.
Cortava as unhas das mortas para não deixar pele dele sob elas. Arrastava o corpo num plástico até a caçamba, com a luz da cozinha desatarraxada. Deixava o corpo à noite logo ao lado de uma estrada deserta, estacionava mais adiante e voltava a pé para arrastá-lo mata adentro.
Voltava aos corpos para ter relações sexuais com eles, “até as moscas chegarem”. Disse que era uma questão de economia: “era de graça, eu não tinha que pagar”. Uma vez fez isso com o filho dormindo no caminhão, a dez metros de distância.
Para confundir a polícia, espalhava chicletes e bitucas de cigarro nos locais, embora não fumasse nem mascasse chiclete. Colocou panfletos de motéis de aeroporto ao lado de um corpo para sugerir um caixeiro-viajante. Em 1984, levou restos de duas vítimas até o Oregon, com o filho no caminhão, para fazer a força-tarefa acreditar que o assassino tinha se mudado. Funcionou por um tempo.
Uma vítima, Carol Christensen, foi encontrada vestida e posicionada, com duas trutas sobre o tronco, uma garrafa de vinho vazia na barriga e linguiça nas mãos. Peritos falaram em simbolismo religioso. Ridgway explicou em 2003: eram coisas que ele tinha em casa e não valiam nada.
Capítulo 5
Ele não se parecia com a ideia que se tem de um serial killer. Não era solitário. Esteve casado ou namorando a vida adulta inteira. Trabalhou trinta anos na mesma fábrica e ganhou prêmios por nunca faltar. Depois da prisão, colegas, ex-namoradas e o irmão disseram que ele nunca fez nada estranho.
Ele cultivava isso de propósito. Sabia que a aparência inofensiva era a arma. “Elas me subestimavam. Eu parecia uma pessoa comum. Minha aparência era diferente do que eu realmente era.”
O QI dele foi medido na casa dos 80. Era disléxico. Mas os promotores notaram que ele tinha uma compreensão quase instintiva de prova forense: usava luvas, tirava as roupas das vítimas, trocou os pneus do caminhão quando temeu ter deixado marcas, e passou num polígrafo em 1984 quando já tinha matado dezenas. “Talvez eu estivesse relaxado demais.”
Ele mesmo se descreveu como mentiroso patológico. Durante meses de entrevistas, mudou cinco vezes a versão sobre quando parou de matar. Dizia não lembrar dos rostos, mas lembrava com precisão o preço de cada carro que teve e a lanterna que quebrou ao descartar um corpo.
Perguntado pelo psicólogo forense o que faltava nele e existia nas outras pessoas, respondeu com uma palavra: “importar-me”.
Ele negou ser sádico e insistiu que não torturava. Numa escala de um a cinco de maldade, deu a si mesmo nota três, porque “elas morriam rápido”. Mas admitiu que, se tivesse conseguido reanimar uma vítima na caçamba, “talvez tentasse algum tipo de tortura”. E uma vez, ao estrangular uma menina de dezesseis anos de frente, achou o olhar dela “doloroso de ver”. A lição que tirou foi passar a matar sempre por trás, para não ver o rosto.
Os corpos eram “minha propriedade”. Quando a polícia encontrava um, ele sentia que estavam “levando algo meu”. Chegou a prender uma vítima no fundo do rio com pedras para que essa, pelo menos, não fosse encontrada.
Sobre a mãe, contou ao psiquiatra que sentia atração sexual e ao mesmo tempo fantasiava esfaqueá-la e incendiar a casa com ela dentro. Ainda no ensino fundamental, seguia meninas até em casa em estado de excitação.

Capítulo 6
No início das entrevistas, ele disse que matava “num acesso de raiva” quando algo na mulher o irritava: ela apressava, ou não fingia orgasmo direito. Culpou o trabalho, os inquilinos, as ex-esposas, o sono ruim, a pensão do filho. Depois admitiu que era tudo mentira. Uma vez dentro da casa, a mulher morria, independentemente de como agisse.
“Eu sempre tive na cabeça matá-las.” Ele deixou claro que os crimes eram planejados. Saía de casa já “no clima de matar”. Quando uma escapava, a raiva alimentava a próxima: “eu perdi uma, a próxima eu vou fazer de tudo para convencer”.
Ele odiava prostitutas e não queria pagar por sexo. Estrangular era “mais pessoal e mais recompensador do que atirar”. Depois da primeira morte no quarto, disse ter sentido medo de ter que esconder o corpo, alívio por não precisar levá-la de volta nem pagar, e “um pouquinho de poder”.
Ele chegou a dizer aos detetives que estava fazendo um favor à polícia: “vocês não conseguem controlá-las, mas eu consigo. Vocês prendem, elas pagam fiança e voltam para a rua. Eu tinha a resposta.”
Fazia questão de uma distinção: “Eu não sou estuprador. Eu sou assassino.” Chamava os crimes de sua “carreira” e dizia ser “bom em uma coisa, matar prostitutas”. Admitiu ter lutado contra a vontade de matar a esposa atual e parentes, e que só não fez porque seria pego.
Quando chorou numa entrevista, o psicólogo perguntou por quê. A resposta: por ter “estragado tudo”, deixando prova demais. Sobre as vítimas, disse que “estavam no lugar errado na hora errada”.
A promotoria encerrou o resumo de provas sem oferecer uma explicação psiquiátrica. Ele não tinha doença mental que o eximisse. “Ele matou porque quis. Ele matou porque podia.”

Capítulo 7
Ele apareceu no radar da força-tarefa em 1983, quando um homem disse que o caminhão de Ridgway parecia o veículo em que viu Marie Malvar pela última vez. Foi entrevistado várias vezes nos anos 80, sempre cooperativo. Admitiu “sair” com prostitutas, inclusive uma das desaparecidas. Em 1984, passou no polígrafo.
Em novembro de 1982, uma mulher chamada Rebecca Garde Guay escapou dele. Ele tentou estrangulá-la no mato, ela se desvencilhou e correu até um trailer. Ele havia mostrado a ela o crachá da Kenworth. Quando a polícia o confrontou, em 1985, ele disse que a sufocou por reflexo porque ela o mordeu. Ela desistiu do caso. Ele não foi acusado.
Em 8 de abril de 1987, a polícia cumpriu mandado de busca na casa, no armário do trabalho e nos carros dele. Levou centenas de itens: fibras de carpete, cordas, tintas, lonas. Nada ligava Ridgway a um crime. Mas um item guardado naquele dia decidiria o caso quatorze anos depois: uma amostra de saliva.
Em 1988, os exames de DNA falharam por limitação técnica. Em 2001, com a tecnologia nova, o laboratório da polícia estadual comparou a saliva de 1987 com o material recolhido das vítimas. Deu positivo para Marcia Chapman, Opal Mills e Carol Christensen. A chance de ser outra pessoa: menos de um indivíduo no mundo inteiro.
Em 16 de novembro de 2001, ele tentou pegar uma policial disfarçada de prostituta na Pacific Highway South e foi preso por isso. Duas semanas depois, em 30 de novembro, foi preso por homicídio ao sair do turno na Kenworth, em Renton.
Em 2003, um laboratório privado encontrou microesferas de tinta na roupa de Wendy Coffield e de Debra Estes. A tinta era a DuPont Imron usada na fábrica da Kenworth. Foram mais três acusações. A promotoria pediu pena de morte.
Em 13 de junho de 2003, fechou-se o acordo: ele confessaria todos os assassinatos em King County e levaria a polícia aos corpos não encontrados, em troca de escapar da execução. Se mentisse sobre uma morte que fosse, a pena de morte voltaria à mesa. Nos cinco meses seguintes, ele levou os detetives a quatro conjuntos de restos mortais, incluindo os de Marie Malvar.
Em 5 de novembro de 2003, declarou-se culpado de 48 assassinatos. Disse no tribunal: “matei tantas mulheres que tenho dificuldade de lembrar de todas”. Em 18 de dezembro, o juiz Richard A. Jones o condenou a 48 prisões perpétuas consecutivas sem liberdade condicional, mais 480 anos por adulteração de provas. Em 18 de fevereiro de 2011, confessou o 49º assassinato, o de Rebecca Marrero, cujos restos apareceram em 2010 num barranco em Auburn. Cumpre pena na Penitenciária Estadual de Washington, em Walla Walla.
Pergunta 1 de 8
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