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Ficha policial de Richard Chase, Sacramento, 28 de janeiro de 1978
Ficha da polícia de Sacramento, 28 de janeiro de 1978, no dia da prisão. · Sacramento Police Department, domínio público

O Vampiro de Sacramento

Richard Chase

Estados Unidos (Califórnia) - Dezembro de 1977 – janeiro de 1978 - 6 mortos em um mês

Um esquizofrênico de 27 anos, solto de um hospital psiquiátrico, convencido de que o próprio sangue virava pó. Em um mês, matou seis pessoas em Sacramento para beber o sangue delas. Entrava só em casas com a porta destrancada.

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Richard Chase no anuário do colégio Mira Loma, 1967
No anuário do colégio Mira Loma, em 1967. Aos dezessete anos, ainda parecia um adolescente comum. A deterioração começou por essa época. · Anuário Recuerdos, Mira Loma High School, domínio público

Capítulo 1

Quem era ele

Richard Trenton Chase nasceu em 23 de maio de 1950, em Santa Clara, Califórnia. O pai era rígido, a casa era de brigas. Aos dez anos, ele tinha as três coisas que os psiquiatras mais tarde chamariam de tríade: molhava a cama, ateava fogo em coisas e torturava animais. Os pais se separaram em 1964, reataram, e se separaram de vez em 1972.

No colégio Mira Loma, em Sacramento, era um garoto comum até os quinze anos: tinha namoradas, ia a festas. Descobriu que era impotente. Passou a beber e usar LSD e maconha todo dia. Virou o solitário da turma, desleixado, de olhar parado. Um médico disse que a impotência era “raiva reprimida”.

Depois do colégio, não parou em emprego nem em casa. Morou com dois amigos que o expulsaram: ele andava nu pelo apartamento, ficava chapado o dia inteiro e tinha ideias fixas. Voltou para a mãe. Bateu nela. Começou a ter certeza de que estava doente: o coração parava, o estômago estava de trás para a frente, alguém tinha roubado a artéria pulmonar dele, os ossos do crânio se moviam. Andava com laranjas na cabeça para absorver vitamina C pelo couro cabeludo.

Em dezembro de 1973, foi internado num surto. Diagnóstico: esquizofrenia paranoide. Saiu em dois dias, contra a orientação médica. Em abril de 1976, deu entrada num hospital com envenenamento do sangue: tinha injetado sangue de coelho nas próprias veias. Foi internado à força no hospital psiquiátrico Beverly Manor. Os enfermeiros o pegaram com dois pássaros mortos e sangue na boca. Deram-lhe um apelido: Drácula.

Em setembro de 1976, os médicos o declararam estabilizado e o entregaram à mãe, com remédios. A mãe achou que os remédios o deixavam apático e parou de dar. Alugou para ele um apartamento sozinho, na Watt Avenue. Ele tinha 26 anos e um diagnóstico de esquizofrenia. Ninguém voltou a checá-lo.

Nascimento
23/05/1950, Santa Clara, Califórnia
Diagnóstico
Esquizofrenia paranoide (1973, 1976)
Internação
Beverly Manor, 1976, liberado à mãe
Apelido no hospital
Drácula
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A casa de Ambrose Griffin em Sacramento, foto da polícia, dezembro de 1977
A casa de Ambrose Griffin, em foto da polícia de Sacramento de 29 de dezembro de 1977. Ele foi baleado na entrada, descarregando compras. · Sacramento Police Department, domínio público

Capítulo 2

Os crimes

Sozinho no apartamento, ele começou pelos coelhos. Comprava, matava, comia cru, bebia o sangue. Depois, cachorros e gatos, roubados da vizinhança ou adquiridos por anúncios. Enforcava-os, abria-os, misturava as vísceras com Coca-Cola no liquidificador e bebia. Em agosto de 1977, a polícia indígena de Nevada o encontrou nu, coberto de sangue, ao lado de um balde com fígado de vaca, perto do Pyramid Lake. Era sangue de vaca. Soltaram-no.

Em 2 de dezembro de 1977, comprou uma pistola .22 numa loja de Sacramento por 69 dólares, mentindo no formulário sobre a internação. Passou duas semanas atirando na parede do apartamento. Em 27 de dezembro, atirou contra duas casas ao acaso. Uma bala passou pelo cabelo de uma mulher na cozinha.

Em 29 de dezembro de 1977, Ambrose Griffin, 51 anos, engenheiro, descarregava as compras do carro com a mulher, na frente de casa, no leste de Sacramento. Um carro passou devagar. Dois tiros. Um acertou o peito. A mulher achou que era um problema cardíaco até ver o sangue. Ele morreu no hospital.

Em 23 de janeiro de 1978, ele entrou pela porta destrancada de uma casa na Tioga Way. Teresa Wallin, 22 anos, grávida de três meses, levava o lixo para fora. Três tiros. O que ele fez com o corpo, no quarto, os policiais mais experientes de Sacramento nunca tinham visto: abriu o tronco, removeu órgãos, bebeu o sangue num copo de iogurte. O marido a encontrou às seis da tarde.

Em 27 de janeiro, a menos de dois quilômetros dali, na Merrywood Drive, ele entrou pela porta aberta da casa de Evelyn Miroth. Estavam lá o filho dela, Jason, seis anos; um amigo, Dan Meredith, 51; e o sobrinho David Ferreira, de 22 meses, no berço. Matou os quatro a tiros. Fez com Evelyn o que tinha feito com Teresa, e mais. Levou o bebê. Saiu no carro de Meredith. Uma vizinha viu.

O corpo de David Ferreira foi encontrado em 24 de março, numa caixa de papelão, entre uma igreja e um supermercado, a um quilômetro do apartamento. Seis mortos entre 29 de dezembro e 27 de janeiro. O calendário no apartamento tinha a palavra “hoje” escrita nas datas das mortes, e em mais 44 dias de 1978.

Ambrose Griffin
51 anos, 29/12/1977, tiro de dentro do carro
Teresa Wallin
22 anos, grávida, 23/01/1978
Merrywood Drive
Evelyn Miroth, Jason (6), Dan Meredith (51), David (22 meses), 27/01/1978
Calendário
“Hoje” em mais 44 datas de 1978
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Capítulo 3

Os padrões

Não havia escolha de vítima. Ambrose Griffin foi um alvo de passagem. Teresa Wallin e Evelyn Miroth foram as casas com a porta aberta. Uma criança de seis anos, um bebê de 22 meses, um visitante de 51: quem estava lá. A seleção era geográfica: um raio de poucos quilômetros em torno do apartamento da Watt Avenue, num subúrbio de classe média de Sacramento.

O padrão era a porta. Ele disse depois que testava maçanetas. Se estivesse trancada, ia embora: “não era bem-vindo”. Se estivesse aberta, era um convite. No dia da Merrywood Drive, tentou antes uma outra casa, trancada, e seguiu.

O tempo era o da doença. Em setembro de 1976, sem remédio, bebia sangue de coelho. Em 1977, de cachorro. Em dezembro, a pistola. Em 29 de dezembro, o primeiro humano, à distância. Em 23 de janeiro, o primeiro corpo aberto. Quatro dias depois, quatro pessoas. O FBI chamou isso de escalada de um assassino desorganizado: cada vez mais perto, mais rápido, mais descuidado.

As cenas eram caóticas. Nada de limpeza, nada de esconder. Sangue no chão, nas paredes, um copo de iogurte, fezes de cachorro, o próprio sapato pisando em sangue. Ele deixou impressões de palma, sola de bota e o carro da vítima aberto com a chave no contato a uma quadra. Foi preso em um dia.

Perfil
Nenhum: quem estava na casa aberta
Região
Poucos km em torno da Watt Avenue, Sacramento
Critério
A porta destrancada
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O Pyramid Lake, em Nevada
O Pyramid Lake, em Nevada. Em agosto de 1977, a polícia o encontrou aqui, nu e coberto de sangue de vaca, e o soltou. · Ken Lund, Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.0

Capítulo 4

Modus operandi

Ele saía de casa com a pistola .22, luvas de borracha e, às vezes, um balde. Andava pelo bairro a pé ou no carro, testando portas. Entrava. Atirava em quem visse, sem falar. Não havia luta, não havia ameaça, não havia sequestro. Era um tiro e depois o que ele tinha ido buscar.

O que ele buscava era sangue. Com Teresa Wallin, abriu o corpo com facas da própria cozinha da vítima, retirou órgãos, recolheu o sangue num copo de iogurte e bebeu. Com Evelyn Miroth, usou um balde. Levou partes dos corpos para o apartamento. Levou o bebê inteiro, no balde, e o decapitou em casa. No apartamento, a polícia achou o liquidificador com sangue, pratos com tecido cerebral, um copo âmbar incrustado.

Não havia disfarce nem fuga planejada. Depois da Merrywood Drive, ele saiu no carro de Dan Meredith, dirigiu uma quadra, abandonou-o com a porta aberta e a chave na ignição, e foi para casa a pé com o balde. Uma vizinha o viu descendo a rua com um casaco laranja. Ela o conhecia do colégio.

O apartamento era a cena principal. Sangue no chão, no teto, nas paredes, no sofá, num pão francês. Coleiras de cachorro. As facas roubadas da casa dos Wallin. Um machado. Um calendário. Quando os policiais o cercaram, ele saiu carregando uma caixa de trapos ensanguentados. Disse: “meu apartamento está bem mais limpo, não? Eu não fiz nada no meu apartamento, só matei uns cachorros”.

Arma
Pistola .22 comprada por 69 dólares
Instrumentos
Facas da vítima, luvas de borracha, copo, balde
Cenas
Caóticas; ele foi preso em um dia
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Ficha policial de Richard Chase em dezembro de 1971, por posse de maconha
A primeira ficha, dezembro de 1971, aos 21 anos, por posse de maconha. Seis anos antes dos crimes. · Sacramento Police Department, domínio público

Capítulo 5

Como ele era

Antes de saber quem era, o FBI o descreveu. Robert Ressler e Russ Vorpagel, chamados por Ray Biondi depois da morte de Teresa Wallin, escreveram: homem branco, 25 a 27 anos, magro, desnutrido, solteiro, desempregado, morando sozinho perto da cena, desleixado, com histórico de drogas e uma psicose paranoide que começou aos quinze anos. Vai matar de novo, e em breve. Acertaram em tudo. Chase tinha 27 anos, pesava 65 quilos, morava a um quilômetro.

Era o retrato do assassino que o FBI passaria a chamar de desorganizado: sem plano, sem controle, sem limpeza, movido por delírio e não por fantasia. Ressler o usou por vinte anos como o exemplo de manual do tipo. Bundy e Ridgway estão no extremo oposto.

Pessoalmente, era um homem magro, pálido, de olhos fundos e uma crosta amarela em volta da boca, que a vizinha notou no supermercado. Não olhava nos olhos. Falava baixo, com convicção, sobre coisas que não existiam: a mãe o envenenava com sabão em pó, os nazistas o perseguiam, discos voadores lhe falavam por telepatia, o sangue dele virava pó e o pó comia o corpo por dentro. Ele precisava repor o sangue. Só isso.

Dois psiquiatras nomeados pelo tribunal o examinaram. Concordaram que era gravemente doente e que a deterioração começou na adolescência. Concordaram também que ele sabia que matar era crime: comprou a arma mentindo, usou luvas, entrou em casas sem ser visto, fugiu. Pela lei da Califórnia, era são. Ele mesmo disse: “há provas suficientes de que eu não sofro de delírio de perseguição, e sim de que sou realmente perseguido”.

Em San Quentin, os outros condenados à morte o odiavam. Sabiam do bebê. Diziam-lhe todo dia para se matar. Ele pedia aos guardas sangue fresco. Entregou a Ressler um copo de macarrão com queijo da prisão e pediu que o laboratório do FBI provasse que estava envenenado.

Perfil do FBI
Branco, 25–27, magro, sozinho, perto da cena. Acertou tudo
Tipo
Assassino desorganizado, o exemplo de manual
Diagnóstico
Esquizofrenia paranoide; “são” pela lei da Califórnia
Delírio central
O sangue virando pó
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Capítulo 6

As motivações

Ele explicou sem hesitar, e nunca mudou a versão: precisava de sangue. O dele estava virando pó por causa de um veneno, e o sangue dos outros o mantinha vivo. Matou animais até cansar. “Decidi que ia matar humanos pelo sangue.” Disse a Ressler que as mortes eram “legítima defesa”, contra os que o envenenavam.

Não havia sexo como motor, embora houvesse atos sexuais com os corpos. Não havia prazer descrito, nem ódio, nem posse. Havia um delírio somático, o de que o corpo se desfazia, e uma solução que a doença ditou. Os psiquiatras chamaram de psicose paranoide com delírio de envenenamento. É o caso mais puro de assassino em série movido por doença mental que o FBI estudou.

A pergunta que ficou não é por que ele matou. É por que estava solto. Foi diagnosticado esquizofrênico em 1973 e em 1976. Injetou sangue de coelho nas veias. Foi apelidado de Drácula pelos enfermeiros. Foi liberado a uma mãe que suspendeu a medicação e o pôs num apartamento sozinho. Comprou uma arma mentindo num formulário que ninguém checou. A polícia de Nevada o achou nu e ensanguentado e o soltou.

Ressler escreveu depois que Chase nunca deveria ter chegado ao corredor da morte: deveria ter sido internado para sempre em 1976. Biondi, que viu as cenas, achou que ele merecia a câmara de gás. Os dois concordaram num ponto: nada do que aconteceu em janeiro de 1978 era imprevisível.

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Capítulo 7

O desfecho

Em 28 de janeiro de 1978, no dia seguinte à Merrywood Drive, uma mulher chamada Nancy Holden ligou para a polícia. Tinha visto o retrato falado no jornal e reconhecido um colega de colégio que a abordara no supermercado cinco dias antes, magro, sujo de sangue, com um casaco laranja e crosta na boca. Ela sabia o nome: Richard Chase. Ele tinha fugido dela no estacionamento.

A polícia achou o endereço, a compra da arma, a internação. Às 17h40, três detetives cercaram o apartamento da Watt Avenue. Ele não abriu. Fingiram ir embora. Ele saiu com uma caixa de trapos ensanguentados debaixo do braço. Correu, foi derrubado, gritou “eu não fiz nada”. No bolso, a carteira de Dan Meredith. Na cintura, a pistola.

Dentro do apartamento, os policiais encontraram o que o tenente Biondi descreveu como a pior cena da carreira. A balística ligou a pistola a todas as seis vítimas, incluindo Ambrose Griffin, cuja morte ninguém tinha relacionado. Em 28 de fevereiro de 1979, um grande júri o indiciou por seis homicídios.

O julgamento foi transferido para Palo Alto, longe de Sacramento, e durou de 2 de janeiro a 8 de maio de 1979. A defesa alegou insanidade. A acusação mostrou o passo a passo: a arma comprada com mentira, o treino de tiro na parede, o primeiro tiro à distância, depois as casas, as luvas. Cem testemunhas. Ele depôs em 29 de março, admitiu tudo, disse que não lembrava dos detalhes e que precisava do sangue. Recusava a comida da prisão por medo de câncer.

Culpado de seis homicídios em primeiro grau em 8 de maio. São, por decisão do júri em 65 minutos, em 14 de maio. Pena de morte três dias depois. Ao ouvir, gritou: “eles fizeram lavagem cerebral em mim! É uma conspiração e ainda estão me envenenando aqui!”. Foi para San Quentin.

Em 26 de dezembro de 1980, às 11h05, um guarda o encontrou morto na cela, de bruços. Tinha 30 anos. A autópsia mostrou uma overdose de Sinequan, o antidepressivo que a prisão lhe dava e que ele vinha guardando, comprimido por comprimido, por semanas. O recurso automático à Suprema Corte da Califórnia nunca foi julgado.

Prisão
28/01/1978, Watt Avenue, um dia depois do último crime
Julgamento
02/01 a 08/05/1979, Palo Alto, juiz John Schatz
Sentença
Morte, 6 homicídios em primeiro grau
Morte
26/12/1980, San Quentin, overdose de antidepressivo guardado
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Pergunta 1 de 8

Qual era o critério dele para entrar numa casa?

Fontes

De onde vem tudo isso

  1. 1.The Dracula Killer: The True Story of California's Vampire Killer, Ray Biondi e Walt Hecox, Pocket Books (1992) - relato do tenente de homicídios de Sacramento que chefiou a investigação
  2. 2.Whoever Fights Monsters: My Twenty Years Tracking Serial Killers for the FBI, Robert K. Ressler e Tom Shachtman, St. Martin's Press (1992) - inclui o perfil de 1978 e as entrevistas com Chase em San Quentin
  3. 3.Mindhunter: Inside the FBI's Elite Serial Crime Unit, John Douglas e Mark Olshaker, Scribner (1995) - Chase como caso de manual do assassino desorganizado
  4. 4.Richard Chase, Wikipedia (inglês) - usada para conferir datas, nomes e o registro do julgamento; confira as notas de rodapé de lá
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