
O Assassino do Fusca
Estados Unidos (Washington, Utah, Colorado, Idaho, Flórida) - 1974–1978 - 30 confessadas, 3 condenações
Estudante de direito, voluntário de campanha, bonito e articulado. Usava gesso e muletas para pedir ajuda. Fugiu duas vezes da cadeia. Foi executado na Flórida em 1989.

Capítulo 1
Theodore Robert Cowell nasceu em 24 de novembro de 1946, num lar para mães solteiras em Burlington, Vermont. A mãe, Louise Cowell, tinha 22 anos. O pai nunca foi confirmado. Nos primeiros anos, ele viveu na casa dos avós, na Filadélfia, e cresceu ouvindo que a mãe era sua irmã mais velha.
Em 1950, Louise o levou para Tacoma, Washington. No ano seguinte casou-se com Johnny Bundy, cozinheiro de hospital, que adotou o menino. Ted nunca aceitou o padrasto. Era tímido, considerava-se deslocado, e mais tarde disse que não entendia o que fazia as pessoas quererem ser amigas umas das outras.
Na Universidade de Washington, formou-se em psicologia em 1972. Trabalhou numa central telefônica de prevenção ao suicídio, onde a colega de turno era uma escritora chamada Ann Rule. Fez campanha para o governador republicano. Integrou uma comissão de prevenção ao crime em Seattle. Escreveu um panfleto sobre estupro para mulheres.
Em 1967, apaixonou-se por uma colega rica e sofisticada, chamada nos livros de Stephanie Brooks. Ela o achou imaturo e terminou em 1968. Ele passou anos se refazendo à imagem que ela esperava. Em 1973, reconquistou-a, falou em casamento e, em janeiro de 1974, cortou contato sem explicação. Ela nunca soube por quê.
Naquele mesmo janeiro, uma estudante de Seattle foi encontrada na cama com o crânio fraturado.

Capítulo 2
Em 4 de janeiro de 1974, Karen Sparks, 18 anos, foi espancada com uma barra de metal enquanto dormia num porão em Seattle e violentada com a mesma barra. Sobreviveu com danos cerebrais permanentes. Em 1º de fevereiro, Lynda Ann Healy, 21, desapareceu do quarto de porão a poucos quarteirões dali. Restou sangue no travesseiro e a camisola pendurada no armário.
Depois, uma por mês: Donna Manson em Olympia, Susan Rancourt em Ellensburg, Roberta Parks em Corvallis, no Oregon, Brenda Ball em Burien, Georgann Hawkins numa viela atrás da fraternidade, em Seattle. Todas jovens, cabelo comprido repartido ao meio. Nenhum corpo.
Em 14 de julho de 1974, em pleno domingo de sol no Lake Sammamish State Park, com quarenta mil pessoas, um homem de braço na tipoia abordou várias mulheres pedindo ajuda para carregar um barco a vela até o carro. Janice Ott, 23, foi com ele à uma da tarde. Denise Naslund, 19, às quatro. Cinco testemunhas o ouviram se apresentar como “Ted”.
Em setembro, caçadores acharam os ossos de Ott e Naslund numa mata em Issaquah. Em março de 1975, alunos de engenharia florestal encontraram na Taylor Mountain os crânios de Healy, Rancourt, Parks e Ball. Só os crânios.
Em agosto de 1974, ele se mudou para Salt Lake City, para a faculdade de direito. Os desaparecimentos pararam em Washington e começaram em Utah: Nancy Wilcox, 16; Melissa Smith, 17, filha do chefe de polícia de Midvale; Laura Aime, 17; Debra Kent, 17, tirada do estacionamento de uma escola. Em 1975, Colorado: Caryn Campbell, Julie Cunningham, Denise Oliverson. Idaho: Lynette Culver, 12 anos. Utah de novo: Susan Curtis, 15.
Em janeiro de 1978, foragido na Flórida, ele entrou na casa da fraternidade Chi Omega, na Florida State University, e em quinze minutos matou Margaret Bowman e Lisa Levy e deixou Karen Chandler e Kathy Kleiner com o rosto quebrado. Oito quarteirões adiante, atacou Cheryl Thomas. Em 9 de fevereiro, tirou Kimberly Leach, 12 anos, do pátio da escola em Lake City. Foi a última.
Ele confessou trinta assassinatos em sete estados nos dias antes de morrer. Os investigadores acham que foram mais. Ele mesmo disse a um agente do FBI que, para cada um que era encontrado, devia haver outro.
Capítulo 3
As vítimas eram jovens, brancas, de classe média, quase todas universitárias. Cabelo comprido e liso, repartido ao meio, como o da ex-namorada. A imprensa e a polícia notaram a semelhança na hora. Ele sempre negou que isso importasse. Disse a Michaud que escolhia por oportunidade, não por rosto.
Os locais eram campi e o entorno deles. Um porão de estudante em Seattle, um dormitório em Ellensburg, um pub perto do aeroporto, um shopping em Utah, uma escola em Bountiful, um hotel de esqui no Colorado, uma fraternidade em Tallahassee. Lugares onde um rapaz de suéter e livros embaixo do braço não chamava atenção.
As datas seguem a vida dele. Washington, enquanto morava em Seattle. Utah, quando entrou para a faculdade de direito. Colorado, nas viagens de fim de semana. Flórida, quando fugiu. Quando ele se mudava, o mapa dos desaparecimentos se mudava junto. Foi isso que a namorada percebeu, e foi isso que ela contou à polícia.
Ele descartava os corpos em matas de montanha, longe da estrada, e voltava. Em Taylor Mountain havia quatro vítimas de quatro cidades diferentes num raio de poucos metros. Os investigadores chamaram de cemitério. Ele chamava de lugar seguro.
Há um vazio nos padrões: sete meses em Washington sem nenhum caso de Lynda Healy a Georgann Hawkins ocorrer na frente de alguém. Depois, em Lake Sammamish, ele abordou pelo menos oito mulheres em público, de tipoia, dando o próprio nome. Ninguém sabe se foi descuido ou vontade de ser visto.

Capítulo 4
O gancho era pedir ajuda. Braço na tipoia, perna engessada, muletas. “Você me ajuda a levar isso até o carro?” Livros, uma pasta, um barco a vela. Quando a mulher chegava ao Fusca, o banco do passageiro não estava lá. Era o momento da barra de ferro.
A outra versão era a autoridade. Em 8 de novembro de 1974, num shopping em Murray, Utah, ele se apresentou a Carol DaRonch, 18 anos, como “policial Roseland” e disse que alguém tentara arrombar o carro dela. Levou-a ao Fusca para “prestar queixa”. No caminho, tentou algemá-la. Prendeu as duas algemas no mesmo pulso. Ela abriu a porta e se jogou na estrada. Ele ficou com a barra de ferro na mão. Horas depois, Debra Kent desapareceu de uma escola a trinta quilômetros dali.
Ele nocauteava com a barra, algemava e levava a vítima inconsciente para longe. Estuprava e estrangulava. Às vezes, mantinha a pessoa viva por horas ou por um dia. Disse a Keppel que uma delas, em Utah, ficou com ele até o dia seguinte.
Depois, voltava. Contou a Keppel que visitava os corpos na Taylor Mountain, que lavava o cabelo e maquiava algumas vítimas, que tinha relações com os corpos até a decomposição tornar impossível. Decapitou pelo menos doze com uma serra e levou cabeças para o apartamento. A de Georgann Hawkins ficou lá por dias.
Na Flórida, o método mudou. Sem carro, sem plano, sem controle. Entrou na Chi Omega de madrugada com um pedaço de lenha de carvalho e atacou quatro mulheres dormindo em quinze minutos. Uma moradora, Nita Neary, viu-o sair pela porta com o toco na mão e o gorro na cabeça. Em Lisa Levy, ele deixou uma mordida na nádega esquerda. Foi essa mordida que o condenou.
Ele não deixava impressões digitais. Não deixava testemunhas, salvo as que escaparam. Roubava: carros, cartões, carteiras. Mudava de aparência com facilidade, o que tornou inúteis os retratos falados. Quando o prenderam em 1975, o Fusca tinha máscara de esqui, meia-calça com furos para os olhos, algemas, corda, picador de gelo e a barra de ferro.

Capítulo 5
Ann Rule dividiu turnos noturnos com ele numa central de prevenção ao suicídio em 1971 e o descreveu como gentil, atento, alguém que salvava vidas ao telefone. Quando o nome dele surgiu como suspeito, ela não acreditou. Escreveu depois que ele era “um sociopata sádico que tirava prazer da dor de outro ser humano e do controle sobre as vítimas, até a morte e depois dela”.
Ele era vaidoso, articulado e encantador em público. Nos julgamentos, dispensou advogados e fez as próprias perguntas às testemunhas. Interrogou o policial que havia encontrado os corpos das amigas de fraternidade e pediu detalhes das feridas. O juiz Cowart, ao condená-lo à morte, disse que era uma perda: “Você teria sido um bom advogado. Eu teria gostado de ter você aqui, mas você seguiu outro caminho, parceiro.”
Em particular, era outra coisa. Elizabeth Kloepfer, com quem viveu seis anos, contou que ele a amarrou com meias durante o sexo e que a asfixiou até ela desmaiar. Achou muletas e gesso no apartamento dele, sendo que ele nunca quebrara nada. Achou um saco de roupas femininas. Ele disse que se ela contasse a alguém, quebraria o pescoço dela.
Ele roubava compulsivamente desde a adolescência: esquis, televisão, plantas, o próprio Fusca. Dizia sentir uma euforia ao pegar coisas. Os psiquiatras que o avaliaram discordaram sobre quase tudo, menos sobre a ausência de remorso. Hervey Cleckley, autor do manual clássico sobre psicopatia, o examinou em 1979 e o considerou um exemplar de manual.
Ele falava de si na terceira pessoa. Com Michaud, aceitou descrever os crimes como “especulação” sobre o que “uma pessoa assim” faria. Chamava a parte de si que matava de “a entidade”. Dizia que ela crescia como um tumor, alimentada por pornografia, álcool e fantasias, até que “o crime começou a ser um exercício de possessão”.
Não era sádico no sentido de gostar do sofrimento pela dor em si. O que ele buscava era a posse total. Disse a Michaud: “você sente o último sopro de ar deixando o corpo. Você está olhando nos olhos. Uma pessoa nessa situação é Deus.” E, sobre si mesmo: “eu sou o filho da mãe mais frio que você vai conhecer”.
Nos últimos dias, chorou diante do investigador Bill Hagmaier, do FBI, e pediu mais tempo para confessar tudo. O advogado dele escreveu que Ted acreditava que, enquanto tivesse informação para dar, não o matariam.

Capítulo 6
A explicação mais popular é a ex-namorada: ele teria passado a matar mulheres que se pareciam com ela depois de ser rejeitado. Ele desmentiu isso. As datas também não batem. O primeiro ataque conhecido veio semanas depois de ele próprio ter descartado a mulher, não o contrário.
A versão dele, na terceira pessoa, começa antes. Um menino que vasculhava lixeiras atrás de revistas de detetive com fotos de mulheres mortas. Um adolescente que andava à noite espiando janelas. Um jovem que passou anos construindo fantasias de dominação e que, um dia, “sentiu a necessidade de fazer algo com isso”. Ele disse que as primeiras tentativas foram desajeitadas, quase acidentais, e que depois de cada uma vinha nojo, e depois do nojo, de novo a vontade.
Ele dizia que a pornografia violenta o havia moldado. Na última entrevista, a James Dobson, na véspera da execução, culpou a pornografia e disse que homens como ele eram feitos em casa, por famílias comuns. Os investigadores que o conheceram ouviram isso com ceticismo: era o que a plateia evangélica de Dobson queria ouvir, e Bundy sempre dizia à plateia o que ela queria ouvir.
O que ele descreveu de mais consistente foi a posse. Não o sexo, não a dor. Ter uma pessoa inteiramente, decidir a morte dela, e continuar a tê-la depois. Por isso voltava aos corpos. Por isso levava as cabeças para casa. Disse a Keppel que as vítimas não eram pessoas para ele, eram imagens, e que uma imagem não morre.
A frase que ele deixou para Michaud resume o resto: “Nós, os serial killers, somos seus filhos, seus maridos. Estamos por toda parte. E haverá mais crianças suas mortas amanhã.”

Capítulo 7
O nome dele chegou à polícia de Seattle quatro vezes em 1974: uma professora da universidade, um colega de trabalho, Ann Rule e a própria namorada, Elizabeth, apontaram o “Ted” do Fusca. Ele era um entre três mil suspeitos. Estudante de direito, sem antecedentes, republicano, não parecia o tipo.
Em 16 de agosto de 1975, às duas e meia da madrugada, um sargento da patrulha rodoviária de Utah viu um Fusca sem farol cruzar a rua em Granger, seu próprio bairro, e o perseguiu. Dentro, achou máscara de esqui, meia-calça com buracos, algemas, corda, picador de gelo e uma barra de ferro. O banco do passageiro estava fora. Ele disse que era para carregar coisas.
Carol DaRonch o reconheceu numa fila de identificação. Em março de 1976, ele foi condenado por sequestro e pegou de um a quinze anos. No Colorado, foi acusado do assassinato de Caryn Campbell. Em 7 de junho de 1977, durante uma audiência em Aspen, pediu para ir à biblioteca do fórum, abriu a janela do segundo andar e pulou. Ficou seis dias solto nas montanhas.
Em 30 de dezembro de 1977, na cadeia de Glenwood Springs, ele passou por um buraco de trinta centímetros que serrou no teto da cela, depois de perder dezesseis quilos. Saiu pelo apartamento do carcereiro, vestido com roupas dele. Só notaram dezessete horas depois. Chicago, Ann Arbor, Atlanta. Em 8 de janeiro de 1978, chegou a Tallahassee.
Uma semana depois, a Chi Omega. Três semanas depois, Kimberly Leach. Em 15 de fevereiro de 1978, um policial de Pensacola parou um Fusca laranja roubado. O motorista tentou fugir, brigou no chão e foi dominado. Disse ao policial: “eu queria que você tivesse me matado”. Levou dois dias para dizer quem era. O FBI o tinha na lista dos dez mais procurados havia cinco dias.
No julgamento de Miami, em julho de 1979, dois odontologistas forenses sobrepuseram fotos da mordida em Lisa Levy a um molde dos dentes tortos dele. Foi a primeira grande condenação por marca de mordida nos Estados Unidos. Culpado em 24 de julho, duas penas de morte em 31 de julho. Em Orlando, em fevereiro de 1980, condenado pela morte de Kimberly Leach, ele pediu Carole Ann Boone em casamento no meio do depoimento dela. Por uma brecha na lei da Flórida, o casamento valeu.
Passou nove anos no corredor da morte. Em 1984, ofereceu-se para ajudar Keppel a caçar o Assassino do Green River. Em janeiro de 1989, sem mais recursos, começou a confessar, estado por estado, tentando trocar corpos por dias de vida. Não funcionou. Às 7h16 de 24 de janeiro de 1989, foi executado na cadeira elétrica da Florida State Prison. Do lado de fora, centenas de pessoas comemoraram com fogos de artifício.
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